SANTO VIVO - ESTUDOS BÍBLICOS
Lugares Marcantes - Minha História

HISTÓRIA DE LUGARES QUE FIZERAM PARTE DA MINHA VIDA

*José Dias


 

NOVA HOLANDA

 

Fazenda no município de São João do Jaguaribe-CE. Ali eu nasci e vivi alguns anos de minha vida.

 

Lá tinha um belo açude, onde aprendi a nadar. Minha mãe teve o cuidado de ensinar cada filho (éramos sete irmãos) a nadar. Nós ainda bem pequenos éramos colocados sobre os braços dela, e fazíamos os movimentos de natação até aprendermos.

 

De manhã cedo íamos para o curral, ver os vaqueiros tirar leite das vacas. Bebíamos o leite ainda quentinho (o leite era coado só no pano).

 

Imagina só qual era o sonho da maioria das crianças daquele reduto: Ser vaqueiro. Os vaqueiros andavam montados em belos cavalos, vestiam roupa de couro chamada gibão, para se protegerem dos galhos das árvores.

             

Algumas noites meu pai, meus irmãos e eu íamos pescar o peixe para o jantar. Lembro que no local da pesca tinha muito mosquitos e pernilongos que nos picavam constantemente, mas mesmo assim nós fazíamos questão de ir.

 

Quando tinha culto na casa de algum irmão ou amigo, a viagem era longa e a pé, mas lembro que todos os irmãos em Cristo tinham muito prazer em ir. Geralmente os cultos eram no terraço ou no terreiro das casas. Não havia eletricidade e a iluminação era feita com lâmpadas a gás ou lamparinas que eram colocadas apenas no púlpito (mesa). O culto era uma alegria só, com muitos louvores e a pregação da palavra era feita por irmãos que geralmente eram quase analfabetos, mas tinham um conhecimento bíblico que hoje não vejo em muitos ditos grandes pregadores. Íamos e voltávamos cantando louvores era uma grande festa. Também tinha os cultos de vigília, quando orávamos a noite toda.


Quando se aproximava o período das chuvas, as pessoas reuniam-se em grandes mutirões para ajudar a limpar a roça uns dos outras. O dono da roça que ia ser ajudado, só tinha de providenciar o almoço, todo serviço era voluntário. Sempre que vinha a primeira chuva, no dia seguinte todos os agricultores iam para a roça plantar alguma semente (feijão, milho, fava etc.). Se depois desta chuva demorasse a chover novamente, toda a plantação estava perdida... Mas, eles não perdiam a esperança, na próxima chuva começavam tudo de novo. Quando alguém matava um animal, boi, carneiro, cabra ou porco, não vendia, distribuía com todos os amigos, cada um recebia conforme o tamanho da família. Não havia lugar para o egoísmo. Nunca entendi porque com tanto lugar vago, as casas eram distantes umas das outras.


 

LOGRADOURO

Fazenda onde morava minha tia mais querida, tia Elita; para nós este nome não existia, era “Titia”. Ela fazia comidas super gostosas... Aliás, qualquer coisa que ela colocasse na mesa era gostosa. Eu acho que ela era o “tempero”.

 

Durante as férias escolares a casa dela ficava cheia de sobrinhos, porque ninguém queria ir para a casa de outros tios. Era o encontro dos primos e primas. Cada família mandava a ajuda que podia, para ela colocar comida na mesa para aquela gente toda. Lembro que nunca vi nem ela nem o marido (José Ideltrudes) reclamando do monte de gente. Passávamos o dia na mata, caçando, brincando, banhando em açudes e na hora do almoço ele nos chamava com um grito que era conhecido de nós todos. Ela gritava para o lado da barragem do açude e a parede de concreto fazia ecoar e espalhar o som, aliás, era muito usado este meio de comunicação no nosso interior.

 

A Casa Grande, do dono da fazenda, Capitão Viana, tinha iluminação elétrica gerada por um sistema composto por um cata-vento, que fazia funcionar um gerador, que acendia as luzes, de maneira bem fraca, mas dava inveja. Quando os cultos eram na casa dele, nós íamos todo alegres para ver a luz.

 

Lá perto da casa da minha tia morava uma senhora chamada Elaide, que era corcunda, e andava sempre com a língua de fora e falando palavrões. Diziam que ela filha do diabo. Nós crianças tínhamos terror dela. Tinha um antigo açude, que a barragem fora destruída pelas formigas grandes que invadiram o local e não foi possível destruí-las. Nós passeávamos por lá, escondido de nossos pais, mas sempre preocupados em não mexer com o formigueiro que eram buracos enormes. À noite os adultos reuniam-se para contar estórias, e nós pequenos ficávamos a escutar, achando lindas. Depois íamos dormir com medo das “almas penadas” citadas nas estórias.


Para caminhar à noite pelas veredas do sertão, eu tinha medo de ir à frente ou atrás, queria ir no meio, pois assim me sentia protegido. Mas quando éramos apenas dois era um grande problema.


 

TABULEIRO DO NORTE - CE

Primeira cidade que morei. Achava do outro mundo, aquelas casas ligadas uma na outra, as ruas calçadas com paralelepípedos, carros, comércio, praças e muita gente, era bem diferente do meu sertão.

 

Estudava no Grupo Escolar Avelino Magalhães, escola primária da cidade. Éramos um pouco discriminados, por sermos crentes, lembro que na hora do intervalo nós ficávamos distantes das outras crianças porque pouca gente queria amizade conosco.

 

Consegui um emprego numa fabrica de doces, que ficava próximo de nossa casa. Lá eu fabricava caixotes para empacotar os doces. Lembro que o dono da fabrica, chamado Chagas Martins, colocava apelido em todos os meninos que lá trabalhavam, o meu era Zé Touro, por causa de meu nome. Fui demitido por ser pego comendo doce, uma abelha me entregou, é que na pressa de engolir o doce, não vi que dentro tinha uma abelha “italiana”, que me picou.

 

Ajudei na construção da igreja evangélica local, Assembleia de Deus. Lembro do lançamento da pedra fundamental, foi assim: fizeram uma caixa de cimento, colocaram uma bíblia dentro e enterraram. A inauguração foi uma grande festa, com a presença de caravanas de todo o estado.

 

Batizei-me no rio Jaguaribe. Estes batismos marcaram muito minha vida, pois nós ouvíamos o juramento de fé da cada batizando, e eu guardava tudo em meu coração.

 

Adolescente ainda passei a tocar cavaquinho na igreja e depois violão, nunca fui um grande músico, mas Deus me dava forças para ir em frente. Lembro que fazia um ritmo bem avivado no hino “Os Guerreiros se Preparam”, a igreja cantava com muita alegria. Tinha muito orgulho de fazer parte do grupo de jovens. Foi neste tempo que aprendi com meus pais a não perder cultos e escola dominical. Meus avós já bem velhinhos não perdiam o culto, iam caminhando e, olha que a igreja não era perto.

 

O porteiro da igreja, irmão Sebastião, dormia muito nos cultos, já que a igreja era grande e ele ficava sozinho na porta. No dia que um novo pastor veio receber a igreja, o nosso “heroico” porteiro dormiu durante a pregação do pastor e caiu da cadeira.

 

Tinha o irmão Antonio Albino, que sempre que chegava na cidade um circo ou parque de diversão ele se “desviava”, já que não era permitido pela igreja, crente participar deste tipo de diversão. Mas quando o circo ou parque ia embora ele corria para se reconciliar com a igreja.

 

Meu pai era pedreiro e fomos trabalhar em uma grande obra de irrigação, para que houvesse plantação no período de seca. Nesta obra havia muitos crentes, tinha o “irmão Pólo” que começou a usar de uma estratégia estranha de evangelização: à noite os trabalhadores iam para o banho no rio, e ele aproveitava este momento em que tinha muita gente reunida para pregar a palavra de Deus, só que claro nesta hora tinha muita gente pelada inclusive ele às vezes. Muitos irmãos o criticavam por isso, mas ele não parou por causa das criticas.


VOLGA

 

Vila ao lado da BR 116, primeira estrada de asfalto que conheci, achava lindo aquele tapete preto que diziam cruzava o Brasil (Hoje sei que vai de FORTALEZA-CE a PORTO ALEGRE-RS).


 

LÁ FORA

 

É um nome que ficou guardado comigo, pois achava interessante, e era lá que morava minha avó materna.


PEIXE GORDO

Vila ao lado do Rio Jaguaribe (o maior rio seco do mundo), que tinha uma ponte linda na BR 116. Para mim era a maior ponte do mundo. Lembro que era estreita dando passagem a um carro de cada vez. (passei por lá em 2004, e estavam duplicando).


PINHEIRÃO

Posto de gasolina, as margens da BR 116. O proprietário era um homem enorme, que deu o seu nome ao posto. Diziam que ele foi lutador de luta livre.

 

Foi lá muitos anos depois, que trabalhei e recebi meu primeiro salário. À noite foi roubado. O caso foi levado à polícia, mas nunca souberam quem foi o ladrão, e eu fiquei sem meu dinheiro.


 

LIMOEIRO DO NORTE - CE

Cidade próxima a Tabuleiro do Norte, onde morava meu tio Manuel Bezerra. Eu sempre gostei muito dos meus primos, filhos dele. A esposa de meu tio, de nome Cícera, tinha vários defeitos, e um deles era retirar parte do dinheiro que os sobrinhos tinham nos bolsos, ela fazia isso durante a noite, por isso aprendemos a dormir com o dinheiro dentro da cueca.

 

Foi às margens do Rio Jaguaribe, na divisa de Limoeiro do Norte com Tabuleiro do Norte, que ingeri bebida alcoólica pela primeira vez... Foi péssimo, briguei, apanhei, tive que me esconder do meu pai na casa do meu avô. Passei vergonha, eu evangélico, filho de família cristã, cometi este grande erro.


 

SITIO DO ROCHA

Lugarejo onde nos anos sessenta a violência já mandava no dia-a-dia das pessoas, com muitas mortes entre os moradores. Havia uma desavença entre as famílias Alves e Maia, era coisa seria. Eles se matavam. Todo ano morriam muitos de cada lado. Não podia haver desempate, sempre que alguém de uma família matava um da outra, já se sabia que ia haver vingança. As primeiras mortes entre estas famílias aconteceram em uma vaquejada, morreram dois de cada lado. Lembro... Eu era criança e acordei ouvindo muita gente conversando na minha casa, quando fui para sala ver o que estava acontecendo, me deparei com dois “presuntos” deitados em colchões na sala da minha casa, eram os irmãos Elias e Maninho, da família Alves, amigos de meu pai.

 

Eu trabalhava para um senhor chamado Aderson, um dos maiores produtores de algodão do Ceará. Colhendo algodão, para ganhar por quilo... Não era fácil.

 

Tinha um grande amigo, Luiz Albino. Nos finais de semana nós dois saíamos pelas casas e bares, com um violão ou uma radiola e muitos discos, para animarmos com música a vida das pessoas. Daí começou a surgir à idéia de que existia boa música, que era a que nós curtíamos, e música brega, que nós não cantávamos de maneira alguma. Isto durou até meu pai me chamar de volta para casa.


 

SÃO JOÃO DO JAGUARIBE - CE

Cidade as margens do Rio Jaguaribe, “o maior rio seco do mundo”, com belas praias fluviais. Cidade bem pequena, mas bem animada, um pessoal de “cabeça bem aberta”.

 

Duas ruas principais onde tudo acontecia na cidade. Duas praças onde as galeras se reuniam para “jogar conversa” fora; ficar dando voltas, namorar e assistir televisão.

 

Aos sábados tinha tertúlia na casa da Edileusa, mas só ia quem era amigo dela, já que a festa era gratuita.

 

Quando resolveram que a cidade merecia água encanada, foi preciso usar muita dinamite, porque o subsolo era todo de pedra. Passaram mais de um ano para concluir o serviço.

 

Foto, só tinha o do Kimkim; oficina de consertos de radio e TV, só a do Raimundinho, meu cunhado; Farmácia só a do Cinério; padaria três, a do Antonio Vidal, da Divina e a da Dona Laura. Só uma mulher de programa, a Maria Teresa, uma mulher de uns cinquenta e muitos anos, muito feia. Igreja só Católica, uma escola primária e um ginásio, onde o diretor das duas era o padre João Eudes. Tinha um soldado de polícia, José Maria, nascido na cidade, então... Os soldados de fora não tinham moral, já que os moradores só aceitavam ir presos se fossem com o nosso soldado. Era uma piada, quando alguém entrava em confusão que a policia chegava para levar o “brigão” preso ele dizia: só vou se for com o Zé Maria, tinham de chamar ele.

 

Fomos morar lá porque meu pai foi enviado para ser pastor nesta cidade. Lá não tinha crente, tínhamos de começar o trabalho do “zero”, com muita fé em Deus.

 

A convenção estadual só pagaria o aluguel da nossa casa. Meu pai arrendou um sitio e nós passamos a tomar conta dos bananais. Mesmo assim o dinheiro era bem pouco, passamos muitas dificuldades, mas meu pai não desistiu. Os cultos eram em nossa casa com poucas pessoas que aceitavam o convite para assistir, outros vinham por curiosidade já que nunca tinham ouvido falar de Jesus. Mas o trabalho rendeu frutos, Deus abençoou e em poucos anos iniciamos a construção do Templo. Meu pai fez uma campanha em que a cidade toda cooperou para a construção, crente e não crentes. Lembro que até o padre se comprometeu a ajudar. Os tijolos nós fizemos, as telhas também, meu pai como pedreiro e mestre de obra, tomou a frente dos serviços com a ajuda de muitos irmãos. Fui embora para a capital Fortaleza, antes do término da obra, por isto não assisti a inauguração. Mas ficou de muito bom gosto.

 

Depois de quase vinte anos de pastorado na cidade meu pai foi transferido de lá, mas esta cidade tem um trabalho consolidado e muitos crentes.

 

Atualmente meu Pai ANTENOR BEZERRA DIAS, é pastor das Assembleias de Deus, ministério Templo Central, em Russas - CE.

 

Obs.: O Ministério Templo Central, no Ceará, faz parte do Ministério do Belém.

 

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