SANTO VIVO - ESTUDOS BÍBLICOS
Contexto Histórico da Época de Jesus

CONTEXTO HISTÓRICO DA ÉPOCA DE JESUS


O JESUS HISTÓRICO

Apenas no século XVIII, com o iluminismo, iniciaram-se os estudos em busca do Jesus histórico, que viveu na Palestina romana nas primeiras décadas do século I d.C. Para diferenciá-lo do Cristo da fé, esse Jesus histórico foi estudado de uma análise crítica do texto bíblico. O estudioso Francês, Ernest Renan (1823-1892) foi um dos grandes popularizadores dessa empreitada, com seu Best-seller Jesus (1863), no qual tentava explicar racionalmente até mesmo os milagres.

 

No século XX, os estudiosos centrados no texto bíblico, adotariam tons menos apaixonados, deixando de lado a batalha inicial contra a fé, para buscar, por pouco que fossem, elementos que permitissem reconstituir a vida e as palavras de Jesus. As frases mais provavelmente proferidas por Jesus foram reunidas e publicadas. E cada episódio de sua pregação foi estudado, para verificar sua plausibilidade. Nos últimos anos a arqueologia tem fornecido importantes aportes a esse conhecimento, corroborando e complementando aquilo que está nos evangelhos. Não são poucas as novidades.

AMBIENTE URBANO DA ÉPOCA DE JESUS

As pesquisas arqueológicas recentes trouxeram muitas informações sobre os diversos ambientes urbanos da Palestina da época de Jesus. Cesáreia era seu porto, Sebastos, eram os mais ambiciosos e ousados projetos urbanísticos do Mediterrâneo oriental. Graças às escavações, sabemos que a cidade portuária era um importante entreposto comercial. Por ele fluíam Grãos, vinho, azeite, resultando disso um sofisticado aparelhamento urbano. Arqueólogos israelenses e americanos revelaram o traçado ortogonal das ruas e edificações com ricas fachadas e telhados, ornamentadas por colunas, revestimentos de mármore, mosaicos e paredes decoradas com pinturas. Cosmopolitana, mediterrânea, Cesáreia englobava tradições judaicas, gregas, romanas e outras, num amálgama sofisticado, que reforçava as relações hierárquicas, unindo antes de tudo, as elites locais às imperiais.

Em Jerusalém, Herodes ampliou e embelezou o Templo, transformando o monte Moriá na maior plataforma monumental de todo o Império Romano. Desde o final da década de 60, a Universidade Hebraica de Jerusalém tem levado adiante escavações na colina ocidental da Cidade Velha, que dá para o monte do Templo e era habitada pela elite judaica. Uma séria de mansões, anteriores à destruição da cidade pelos romanos em 70 d.C., data, grosso modo, da época de Jesus. Uma das mansões, comparável às maiores do mundo romano, apresentava afrescos nas paredes, semelhantes aos do segundo estilo de Pompéia. A residência apresentava ainda mosaicos no solo, cerâmica local e importada, vidros, lamparinas e instalações destinadas aos banhos rituais judaicos (miqvot). A descoberta revela que as casas senhoriais judaicas, preocupadas com a pureza ritual, estavam bem integradas nas modas e estilos de vida das elites romanas.

Tiberíades e Séforis eram outros núcleos urbanos importantes, habitados em sua maioria por judeus, mas mostravam também uma mescla das tradições judaicas com o helenismo romano, sempre no que se refere às elites.

Nem toda a elite judaica estava compactuada, porém, com os dominadores romanos. A resistência ou recusa ao acordo pode ser avaliada por dois grandes monumentos arqueológicos, Massada e Qumram. A ocupação da colina de Massada por rebeldes judeus, algumas décadas depois da morte de Jesus, mostra a vitalidade da revolta nacionalista judaica. Mas a descoberta que mais causou sensação foi a do complexo Qumram, às margens do Mar Morto. Ali vivia uma comunidade de essênios que cultivava um estilo de vida austero, bem distante do cosmopolitanismo das elites judaicas de Cesáreia, Jerusalém ou mesmo de Séforis.

Os essênios praticavam banhos rituais, copiavam os textos bíblicos, com destaque para a literatura profética (neviim), e criticavam as elites judaicas urbanas. Mais do que tudo, opunham-se à cúpula sacerdotal de Jerusalém. Embora nada indique que Jesus tenha conhecido a comunidade, a oposição à elite sacerdotal constitui um pano de fundo comum a Qumram e ao movimento do homem de Nazaré.


 

O OSSUÁRIO DE CAIFÁS

Em novembro de 1990, os operários que trabalhavam em uma parte da antiga Jerusalém encontraram uma caverna usada como sepultamento, fechada desde o ano 70 d.C., quando da destruição da cidade pelos romanos. No ossuário, achou-se o nome em aramaico Caiaphas, com os ossos dos membros da família do sumo sacerdote, ali colocados após a decomposição da carne. Ossuários eram usados pelas famílias judaicas de elite e, talvez reflitam a crença na ressurreição.

 

O ossuário é decorado com dois círculos, formados por seis rosetas de cada. Mencionam-se ali diversos membros da família, como Miriam (Maria), Shalom (Salomé), Shimon (Simão), Iehosef (José), Caiapha (Caifás). E, nele encontraram-se ossos de duas crianças, um menino adolescente, uma mulher adulta e um homem de cerca de 60 anos, provavelmente o sumo sacerdote Caifás, citado nos evangelhos de Mateus e João.

 

A tumba, relativamente simples, indica sua origem modesta, o que coincide com a narrativa evangélica, pois Caifás teria chegado ao sumo sacerdócio graças a seu casamento com a filha de Annás, sumo sacerdote entre 6 e 15 d.C. Considerando as outras sepulturas de elite do mesmo local e época, chama atenção a alta mortalidade infantil: das pessoas enterradas, 40% não chegaram ao quinto ano de vida e 63% não alcançaram a adolescência. 

 

Outra constatação interessante, relativa à tumba de Caifás, é que uma mulher da família tinha a moeda de Agripa (42/43 d.C.) na boca, refletindo o costume grego ligado ao pagamento do personagem mitológico Caronte, barqueiro encarregado de levar a alma do defunto para o mundo dos mortos. Isso mostra o ecletismo cultural da época, prevalecendo mesmo na família do sumo sacerdote.

 

Em 1962, arqueólogos italianos, encontraram nas ruínas do teatro de Cesaréia Marítima, sede do poder romano, uma inscrição com o nome de Pôncio Pilatos. No Mediterrâneo oriental, os romanos usavam em geral a língua grega, mas a inscrição era em latim: “Pôncio Pilatos, prefeito da Judéia, construiu este edifício em honra ao imperador Tibério”. O uso de uma língua oficial pouco difundida na região demonstra tanto o caráter imperial da mensagem como provavelmente, a presença de uma pequena, mas poderosa comunidade italiana, compondo um quadro multicultural na costa mediterrâneo.

 

Em contraste com a aldeia de Cafarnaum, em um terreno sob custódia dos franciscanos, foram encontradas ruínas e inscrições datadas do século II d.C. Os pesquisadores aventaram a hipótese de que se trataria da casa de Pedro, na qual Jesus teria estado. Não temos certeza disso, mas podemos afirmar que essa casa modesta, em área visitada por Jesus, evidência um contexto bem diferente do cosmopolitano de grandes centros como Cesaréia e Jerusalém.

 

O mesmo contexto popular aparece em outros achados arqueológicos recentes. Em meados da década de 80, uma longa estiagem levou ao rebaixamento do nível do mar da Galiléia. Quando o nível da água estava mais baixo em janeiro de 1986, dois membros do Kibutz (fazenda coletiva) Ginnosar notaram que havia um barco no meio da lama. O barco media cerca de 3 x 8 metros, abrigava em seu interior cerâmicas e lamparinas do primeiro século, datação confirmada pelo exame de carbono-14 da madeira. O uso de madeira barata mostra a simplicidade e pobreza dos pescadores da Galiléia, que conviviam com Jesus. 

 

OS CRUCIFICADOS

Apenas os não romanos, preferencialmente escravos ou pobres, eram crucificados. Os romanos podiam ser condenados à morte, mas não a crucificação, punição humilhante. Encontrou-se em Givar Hamitvar, perto de Jerusalém, uma necrópole, com uma tumba familiar datada do século I d.C. Uma das ossadas era de um homem, com cerce de 1,65 metros de altura e 25 anos. Seu calcanhar direito havia sido perfurado por um prego de uns 10 cm. O prego se entortou, ao ser martelado na madeira dura da oliveira que servia como suporte vertical na cruz. E não pode ser retirado após a morte do condenado. De modo que prego e madeira ainda estavam ligados ao pé quando o homem retirado.

 

Seus braços haviam sido amarrados à cruz, e não pregados, e suas pernas não foram quebradas. De maneira incomum as autoridades permitiram que o corpo fosse sepultado. Graças a esse achado, muito raro, podemos confirmar que se podiam pregar os crucificados e, ainda que excepcionalmente, enterrá-los. Nenhuma dessas duas informações dos evangelhos (uso de prego e enterro) parecia provável, até a descoberta arqueológica.  

 

O SACERDÓCIO NA ÉPOCA DE JESUS

Afirma a Bíblia Sagrada que durante o ministério terreno de Jesus, o sumo sacerdócio foi exercido de Anás até Caifás, mostrando assim que a duração do seu ministério se limita aos anos de exercício das funções desses pontífices. Começou pois, sob o pontificado de Anás, durando até o pontificado de Caifás, o que não perfaz um intervalo de quatro anos. Desta maneira as regras estabelecidas pela Lei de algum modo já não eram observadas naquela ocasião; tinha-se abolido as normas segundo as quais o cargo era vitalício e transmitido por sucessão ancestral. Os governadores romanos confiavam o sumo sacerdócio ora a um ora a outro, e ninguém no cargo se mantinha por mais de um ano.

 

Josefo enumera, de fato, quatro sumos sacerdotes, que se sucederam de Anás até Caifás, declarando no livro das Antiguidades: "Valério Grato, tendo deposto do sacerdócio a Anás, nomeou sumo sacerdote a Ismael, filho de Fabi; pouco tempo depois, igualmente o depôs, e designou para o sumo sacerdócio a Eleazer, filho de Anás. No fim de um ano, depôs a este e entregou o sumo sacerdócio a Simeão, filho de Camith. Este também não exerceu sua funções por mais de um ano e teve como sucessor José, denominado também Caifás".

 

Assim fica evidenciado que o ministério de nosso Salvador durou três anos e alguns meses, visto que foram quatro os sumos sacerdotes, desde Anás até a Caifás, que ocuparam em quatro anos este cargo. A Escritura, nos Evangelhos, assinalam que Caifás foi realmente o sumo sacerdote no ano em que se consumou a paixão de Jesus (Mt 26.3-57; Jo 11.49; 18.13).


Pedro Paulo A. Furnari

 

FONTES:

Revista História Viva

História Eclesiástica - Eusébio de Cesaréia - Editora Paulus

www.santovivo.net


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