SANTO VIVO - ESTUDOS BÍBLICOS
Crítica Textual da Bíblia Sagrada

CRÍTICA TEXTUAL DA BÍBLIA SAGRADA


DEFINIÇÃO

Crítica de um documento é o exercício de julgamento de uma pessoa sobre todas as questões envolvidas na compreensão de seu significado, verificação de sua verdade e apreciação de seu valor. A crítica é essencialmente uma disciplina de apreciação, não um compromisso de encontrar falhas, e não necessariamente destrutivas. As questões que o estudo crítico levanta relacionam-se com as fontes delineadas e o uso que se faz delas, a identidade do escritor, credenciais, propósito e o estilo e estrutura literária do próprio documento.

O dialogo entre alguém que aceita a leitura crítica da Bíblia e outro que crê na inspiração e na integridade da Bíblia é difícil, porque cada um parte de concepções diferentes. O crítico radical da Bíblia pressupõe que a Bíblia é apenas uma obra literária como qualquer outra, como tal devendo ser julgada pelos padrões da crítica histórica e literária; ademais, segundo esses críticos, existe uma evolução religiosa, pelo que as explicações naturais de fenômeno bíblico devem substituir as sobrenaturais. Esses críticos veem a Bíblia como um livro escrito por autores humanos, ignorando, portanto a função do Espírito Santo na inspiração dos autores da Bíblia.

 

AS BASES FILOSÓFICAS E TEOLÓGICAS DA CRÍTICA BÍBLICA

A filosofia idealista de Immanuel Kant (1724-1808), combinada com as ideias de Schleiermacher, Hegel e Ritschl, formou um respaldo filosófico favorável a uma abordagem critica da Bíblia. Kant fez dos ensinos de Locke sobre a sensação e de Descartes sobre a razão as chaves do reconhecimento de fenômenos da natureza mas propôs em sua Crítica da Razão Pura (1781) que o homem não poderia conhecer a Deus ou a alma, classificados por ele como dados do mundo do “noumena”, pelo sentido ou pela razão. Sua formação pietista levou-o a afirmar o sentido do dever ou consciência moral do homem, chamados por ele de “imperativo categórico”, como base da religião Kant concluiu em Crítica da Razão Prática (1788) que, como o homem tem um juízo moral, há um Deus que produz esse juízo. Os postulados da alma e da vida imortal são essenciais para que os homens que obedecem aos ditames da consciência sejam recompensados, uma vez que geralmente os bons não recebem galardão nessa vida.

 

Kant nega que o homem possa conhecer o mundo dos “noumena”. Não há portanto, lugar em seu sistema para uma revelação histórica e objetiva de Deus na Bíblia, considerada por ele um livro de história, escrito pelo homem, devendo como tal ser analisado pela crítica histórica como qualquer outro livro. Não há lugar para Cristo, o homem-Deus, no sistema kantiano. O homem em seu livre arbítrio e sua noção imanente daquilo que é certo, torna-se criador de uma religião pela qual desenvolve a moralidade nele inerente. Há uma linha lógica de continuidade entre o idealismo kantiano e o liberalismo moderno, para o qual cada um tem dentro de si a “centelha do divino” que precisa cultivar para alcançar uma boa conduta moral e a consequente imortalidade. Com essas ideias, Kant ajudou na formação de uma estrutura filosófica para a crítica bíblica e a moderna teologia liberal.


A CRÍTICA BÍBLICA
O racionalismo do Iluminismo e a filosofia idealista da era romântica foram, pois, os pais de uma crítica da Bíblia que visa destruir a natureza sobrenatural da Bíblia como revelação e que transforma a Bíblia num relato da evolução subjetiva da religião na consciência humana.

 

A alta crítica, ou crítica histórica ou literária, ou, como também é conhecida, a introdução bíblica, geralmente associada a essas ideias destrutivas, é simplesmente o cuidadoso estudo do pano de fundo histórico de cada livro da Bíblia; a baixa crítica, ou crítica textual, é uma tentativa de determinar se o texto que temos é aquele que saiu das mãos do autor. A baixa crítica tem conseguido assegurar ao texto da Bíblia um alto grau de fidelidade a fim de que estejamos seguros de ter os escritos dos autores originários da Bíblia. Por isso nenhuma doutrina ou ensino ético da Bíblia pode ser questionado nem pelo crítico mais radical. É a alta crítica, e não a baixa, que tem destruído a confiança de muitas pessoas na revelação divina da Bíblia.

 

A popularização da alta crítica é associada ao nome de Jean Astruc (1684-1766), médico francês do século XVIII, que em 1753 dividiu o livro de Gênesis em duas partes. Ele propôs o uso de dois documentos como fontes, por ter encontrado o nome Elohim (Deus) empregado em vários lugares e Javé (Senhor) em outros. Johann G. Eichhorn (1752-1827), outro crítico, responsável pela afirmação de que ao Bíblia deveria ser lida como um livro humano e analisado com recursos humanos, deu a tais estudos o nome de alta crítica.

 

Eichhorn notou outras características literárias; o uso dos nomes de Deus levou-o a crer que não somente o Gênesis mas o Hexateuco (Gênesis a Josué) eram documentos compostos. Em 1853, Hupfield foi o primeiro a sugerir que o Pentateuco era obra de ao menos dois autores, em vez de uma narrativa composta de muitas fontes por Moisés.

 

A “Alta Crítica” ou “Crítica Histórica”, estando ligado ao exame dos vários livros da Bíblia do ponto de vista de sua história. Por exemplo, trata da idade, autoria, formas literárias, estágios de composição e autenticidade canônica. Traça sua origem, preservação e integridade, mostrando seu conteúdo, caráter geral e valor. É uma disciplina que vem ajudando muito na comprovação de um cânon genuíno da Escritura. Algumas vezes a expressão “Alta Crítica” tem sido considerada extremamente prejudicial para uma atitude adequada e reverente para as Sagradas Escrituras. Isso se aplica quando o erudito perdeu de vista a inspiração da Palavra e a substituiu por sua própria atitude de ceticismo e incredulidade.


A Alta Crítica, no uso popular, designou um grupo particular de teorias que supõem que vários livros bíblicos não são o que parecem. As duas teorias mais frequentes são:


1)
A Hipótese de Desenvolvimento relacionada ao Pentateuco. Esta é uma hipótese de trabalho, desenvolvida pelos eruditos alemães Graf e Wellhausen, que é hoje comumente ensinada como o ponto de partida para o estudo bíblico acadêmico.


Esse estudo começa com a suposição de que os cinco livros de Moisés são uma composição de quatro fontes distintas: duas narrativas históricas (J e E); Deuteronômio (D); e um documento relacionado principalmente com adoração e ritual (P, que teria sido composto por sacerdotes). Wellhausen acreditava que o padrão de adoração de Israel se desenvolveu de santuários e locais para um único templo em Jerusalém, que se tornou o único lugar onde os sacrifícios poderiam ser oferecidos. Dessa forma, D e P foram escritos, pelo menos em parte, para reivindicar a aprovação de Moisés para essa organização. Wellhausen datou J e E na antiga monarquia, uma vez que eles refletem a aceitação inquestionável de santuários locais. Ele identificou Deuteronômio como o livro da Lei encontrado no templo durante as reformas de Josias (621 a.C.; 2Rs 22.8-20) e o descreveu como um tratado pseudomosaico do século VII impondo a centralização da adoração. O documento P ele situou após o exílio, durante o tempo em que, segundo sua teoria a compilação final estava sendo feita à mão e conduzida sob a direção de Esdras.


De acordo com essa visão, nenhum material dos cinco livros foi escrito por Moisés; D e P foram posteriores a Moisés e expressavam ideias de que Moisés (uma figura muito obscura, na mente de Wellhausen) podia jamais ter tido. De modo não surpreendente, a negação especulativa da autoria mosaica e sua afirmação de que a figura de Moisés foi usada enganosamente para promover uma posição não mosaica foram sustentadas para levantar graves questões sobre autoridade da Bíblia. Pode a autoridade divina ligar-se à ficção mascarando fatos?


2)
Data do Século II Proposta para o Livro de Daniel. Esta segunda teoria pode ser datada por um escritor anticristão de século III chamado Porfírio. Ele sustentava que Daniel foi escrito quando Antíoco Epifânio estava perseguindo os judeus e que seu propósito era encorajar os perseguidos. Não aceitando que Daniel seja profecia de predição, a teoria trata dos panoramas dos impérios terrenos nos capítulos 2, 7, 8 e 11 como sendo escritos após o evento para manter a confiança de que Deus esteve o tempo todo no controle, e logo traria aflição a Antíoco e levantaria seu próprio reino de forma visível. Para o livro ter esse efeito, entretanto, ele teria de ser aceito como uma produção do século VI na qual os capítulos sobre visões foram escritos pelo próprio Daniel. Aqui novamente estava uma teoria envolvendo mentira e falsidade em questões de fato que nega a uma parte da Bíblia a autoridade da verdade.


Outras teorias, que são às vezes citadas como exemplos da mais alta crítica são igualmente problemáticas.


REFUTAÇÃO A CRÍTICA BÍBLICA

Os escritores bíblicos sempre assumem que, porque Deus é verdadeiro e as Escrituras são sua Palavra para nós, todas as afirmações bíblicas são verdadeiras. Os adeptos da Alta Crítica que acham que há boas razões para concluir que, por exemplo, as cartas que usam o nome de Paulo e reivindicam sua autoridade apostólica não foram escritos por ele ou que outros capítulos incluídos nos livros que usam os nomes dos profetas não foram escritos ou conhecidos por aqueles profetas, ou que narrativas que dão a entender serem fatos (p.ex., Adão e Eva, os patriarcas, o Êxodo, as histórias de milagres dos Evangelhos) são realmente ficção, devem defender a retirada deles do cânone bíblico. O fato de eles pensarem assim demonstra não só irreverência para com as Escrituras, mas também falta de entendimento quanto à sua natureza.


Há clara evidência no mundo da erudição de que as teorias da Alta Crítica já escritas são desnecessárias e, na verdade, artificiais. Elas foram criadas com um fundo de preconceito contra a soberania divina, os milagres e desejo por explicação naturalísticas do aparentemente sobrenatural. Atualmente essas correntes teológicas são menos fortes. Embora a hipótese de Wellhausen ainda seja frequentemente ensinada aos iniciantes como se fosse uma certeza, profissionais do todas as escolas de pensamento a estão presentemente questionando de todos os ângulos. A autenticidade de todas as cartas de Paulo, todos os livros proféticos do Antigo Testamento, toda a história do Gênesis e dos Evangelhos e, na verdade, todos os fatos da Bíblia que foram questionados em qualquer época do passado são atualmente defendidos pelos eruditos com pelo menos tanta convicção quando pareciam no ceticismo para os céticos.


Mas isso não quer dizer que o apropriado trabalho de crítica bíblica, tanto a Alta quanto a Baixa, está encerrada ou que algum dia será. A forma da mente revelada de Deus está presente nas expressões de seus escritores humanos, e, portanto, o trabalho de exploração em todos os ângulos do que eles escreveram deve continuar. As técnicas da crítica são as ferramentas para essa tarefa. Até a metade do século XX, os eruditos bíblicos eram vistos pelos críticos principalmente como coletores, guardiões e servos de tradições, e o interesse critico centralizava-se nas suas fontes e nas formas literárias de seus materiais. Mas recentemente, o interesse centralizou-se nos escritores como pensadores e comunicadores por seu próprio direito, e as técnicas principalmente cultivadas foram aquelas relacionadas com a crítica literária e social, investigando como o conhecimento dos assuntos sobre os quais os escritores estavam escrevendo condicionou o que eles diziam.


Todas estas são linhas adequadas e necessárias de investigação, e não devemos nos desencorajar na sua procura pelo fato de que, às vezes, surgem respostas erradas. As teorias que formamos, contudo devem sempre ter em vista aquilo que os teóricos da “Alta Crítica” esquecem que as Escrituras Sagradas são a verdadeira e fidedigna Palavra de Deus.


EVIDENCIAS PARA TEXTOS BÍBLICOS

O crítico bíblico sincero utiliza-se de três fontes principais de evidência para determinação das palavras exatas, as mais próximas dos manuscritos originais. Além de examinar os manuscritos e versões, o crítico também deve usar outra fonte valiosa, os escritos dos Primeiros Pais da Igreja.


OS PAIS DA IGREJA

Esses homens foram grandes líderes, teólogos, professores e eruditos dos primeiros séculos depois de Cristo. Eram cristãos dedicados que escreveram sermões, comentários e harmonias. Eles defendiam ardentemente a fé contra as incursões pagãs e heresias.


Estes homens citaram livremente a Bíblia, não só mencionando todos os 27 livros do Novo Testamento, mas virtualmente cada versículo destes 27 livros. Geisler e Nix, no livro “Introdução Geral à Bíblia”, afirmam: “Cinco pais apenas, de Irineu a Eusébio, possuem quase 36 citações do Novo Testamento”.


Há alguns anos, Sir David Dalrymple estava jantando com um grupo de letrados, quando alguém perguntou se, caso todo o Novo Testamento fosse destruído no século IV, seria possível formá-lo de novo a partir dos escritos dos Pais da Igreja dos séculos II e III. Dois meses depois ele disse a um dos participantes: “A pergunta despertou minha curiosidade e como possuía todas as obras existentes dos Pais da Igreja dos séculos II e III, comecei uma pesquisa. Até agora encontrei o Novo Testamento inteiro, exceto 11 versículos”.


O testemunho dos escritos dos Pais da Igreja quanto à autenticidade do texto é de suma importância. Primeiro, por causa de sua devoção a Deus e à sua Palavra, eles foram extremamente cuidadosos ao copiar as Escrituras. E segundo, por terem vivido tão perto dos dias apostólicos. É provável que tivessem tido acesso a manuscritos que não existem mais hoje. Há possibilidade de que alguns tivessem acesso aos próprios originais.


OS ROLOS DO MAR MORTO

Os Rolos do Mar Morto, descobertos, provavelmente, em 1947 por beduínos árabes chegaram às mãos dos estudiosos no fim daquele ano e no começo de 1948. As descobertas se realizaram nas cavernas nos penhascos margosos que distam entre um e dois km ao oeste da extremidade nordeste do Mar Morto, localidade esta que é conhecida pelo nome árabe de Cunrã (Qumran), perto de uma fonte copiosa de água doce chamada Ain Fexca (Feshkha). Esta localização à margem do deserto de Judá faz com que às vezes haja a expressão “Rolos de Ain Fexca”, ou “Rolos do Deserto de Judá”.


Os rolos foram vistos por vários estudiosos na parte posterior do ano 1947, e alguns deles confessam que na época, menosprezaram-nos como sendo falsificações. Um dos professores que reconheceram a verdadeira anti­guidade dos rolos foi o falecido Professor Eleazar L. Sukenik da Universidade Hebraica, e ele conseguiu mais tarde comprar alguns deles. Outros rolos foram levados para a Escola Americana de Pesquisas Orientais em Jerusalém, onde o Diretor interino, Dr. John C. Trever, percebendo seu grande valor, mandou fotografar os pedaços que foram levados a ele. Uma das suas foto­grafias foi enviada ao Professor William F. Albright, que imediatamente declarou que esta foi “a descoberta a mais importante que já tinha sido feita no assunto de manuscritos do Antigo Testamento”.


Escritos pelos essênios, entre o primeiro século antes e o primeiro século depois de Cristo, as partes bíblicas deste rolo nos fornecem manuscritos centenas de anos mais antigos que quaisquer outros. Partes de cada livro do Antigo Testamento foram encontradas, com exceção de Ester. De especial interesse são os rolos do livro do Profeta Isaías, porque um dentre os dois documentos é o livro completo do grande profeta. Trata-se de um manuscrito hebraico de Isaías Mil anos mais antigo do que qualquer outro já descoberto. De maneira notável, os rolos confirmam a exatidão do texto mossorético do Antigo Testamento.


OS PAPIROS DAS TUMBAS DO EGITO

De grande interesse para os eruditos bíblicos é uma certa quantidade de papiros descobertos recentemente (1931) nas tumbas do Egito. Estes têm sido frequentemente considerados os de benefício mais importantes para a crítica textual do Novo Testamento, desde que Tischendorf anunciou a descobertas dos Códices Sinaíticos. Esses papiros foram adquiridos por um colecionador de manuscritos, A. Chester Beatty. Outros se encontram na Universidade de Michigan e nas mãos de particulares. Eles contêm partes do Antigo Testamento em grego: trechos consideráveis de Gênesis, Números e Deuteronômio, e trechos de Ester, Ezequiel e Daniel. Três manuscritos do grupo são livros do Novo Testamento: porções de trinta folhas dos Evangelhos e Atos, oitenta e seis folhas das Epístolas Paulinas e dez folhas da parte do meio do livro de Apocalipse. Esse material é de maior importância, pois data do século III, ou antes. O texto é de tão alta qualidade que se compara aos Códices Vaticano e Sinaítico.


O fragmento de John Rylands é um pequeno pedaço de papiro com apenas 38,96 cm por 6,4 cm. Embora tão pequeno, é reconhecido como o manuscrito mais antigo de qualquer parte do Novo Testamento. Está escrito de ambos os lados e contém uma parte do Evangelho de João: 1.31-33,37,38. Foi obtido em 1920.


Em 1956, Victor Martin, professor de filologia clássica na Universidade de Genebra, publicou um códice de papiro do Evangelho de João: o Papiro Bodmer II. Este incluía os capítulos 1.1 até 14.26, sendo datado de 200 d.C. Trata-se provavelmente do livro mais antigo do Novo Testamento.


CONCLUSÃO

Qualquer que seja a variante das leituras descobertas pelos críticos textuais, é um fato reconhecido que nenhuma delas de maneira alguma altera a doutrina cristã.

Os críticos Wescott e Hort, Erza Abbot, Philip Scraff e A. T. Robertson avaliaram cuidadosamente as evidencias e concluíram que o texto do Novo Testamento é mais de 99% puro.


J. DIAS

FONTES:

Fundamentos da Teologia Pentecostal – Editora Quadrangular.

Bíblia de Estudo de Genebra – Editora SBB
O Cristianismo Através dos Séculos - Editora Vida Nova

www.santovivo.net

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