SANTO VIVO - ESTUDOS BÍBLICOS
Martinho Lutero - Reformador da Igreja

MARTINHO LUTERO, O REFORMADOR DA IGREJA


Martinho Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483 na pequena cidade de Eisleben. Filho de um burguês modesto, chefe da corporação de mineiros locais. Em 1511 tinha cotas de participação em seis minas de cobre e duas fundições, mesmo assim a família passava por dificuldades financeiras quando Lutero nasceu.

 

Seus pais, particularmente sua mãe eram muito supersticiosos e inculcaram nele muitas superstições próprias dos camponeses. Algumas dessas fantasias o perseguiram durante a longa luta em busca da salvação de sua alma.

 

Após um breve período numa escola em Magdeburg, Lutero foi mudado para uma escola em Eisenach, ficando ali de 1498 a 1501. Era sustentado por amigos bondosos. Nessa escola recebeu o ensino superior de latim, condição essencial para sua entrada na Universidade. Em 1501 já na Universidade de Erfurt, começou a estudar filosofia de Aristóteles sob a influência de professores que seguiam as ideias nominalistas de Guilherme de Occam. Occam ensinava que a revelação era o único guia no campo da fé, mas que a razão era o guia verdadeiro da filosofia. Esses estudos filosóficos de Lutero em Erfurt convenceram-no da necessidade da intervenção divina para que o homem alcançasse a verdade espiritual e se salvasse. Em 1502, ele recebeu o grau de bacharel em artes, em 1505, o de mestre em artes.

 

Seu pai queria que ele estudasse direito; Lutero porém ficou apavorado durante uma perigosa tempestade numa estrada de Erfurt, e prometeu a Santa Ana tornar-se monge caso conseguisse sair da tempestade com vida. Talvez a crescente preocupação com sua alma tenha chegado a um clímax com essa experiência de julho de 1505, que seu pai chamava de “tramoia do diabo”. Três semanas depois Lutero entrou num mosteiro da ordem agostiniana em Erfurt. Em 1507 foi ordenado monge e celebrou a primeira missa.

 

No inverno de 1508, ensinou teologia por um semestre na Universidade de Wittenberg. Seus estudos agora em Erfurt eram principalmente teológicos. Tais estudos só fizeram aguçar sua luta interior; ele encontrou auxílio nos conselhos do piedoso Johann Von Staupitz, o vigário geral da sua ordem, que lhe aconselhou a confiar em Deus e estudar a Bíblia.

 

AS CONSEQUÊNCIAS DA VIAGEM A ROMA

No inverno de 1511, sua ordem o enviou a Roma a negócios. Lá ele viu um pouco da corrupção e da luxúria da Igreja Romana e começou a compreender a necessidade de uma reforma. Passou muito tempo visitando igrejas e vendo as numerosas relíquias que estavam em Roma. Ficou chocado com a leviandade dos sacerdotes italianos, capazes de rezar várias missas enquanto ele rezava uma. Quer dizer, os sacerdotes rezavam missas sem se preocupar com o conteúdo, muitos menos com o povo que vinha para participar da mesma.

 

Em 1511, Lutero foi transferido para Wittenberg. Durante o ano seguinte, tornou-se professor da Bíblia e recebeu o título de doutor em teologia. Até sua morte ele ocupou a posição de professor de teologia.

 

Passou a ensinar os livros da Bíblia na linguagem local e para fazê-lo melhor, começou a estudar as línguas originais da Bíblia. De 1513 a 1515, deu aulas sobre os Salmos; de 1515 a 1517 ensinou sobre a carta aos Romanos e depois Gálatas e Hebreus. Entre 1515 e 1519, quando preparava suas aulas encontrou a tão buscada paz interior que nunca conseguira nos ritos, nos atos ascéticos e nas flagelações. A leitura do versículo 17 do capítulo 1 de Romanos convenceu-o de que somente pela fé em Jesus era possível alguém se tornar justo diante de Deus. A partir daí ele compreendeu que a justificação diante de Deus era alcançada somente pela fé e a certeza de que as Escrituras são a única autoridade para o pecador procurar a salvação em Cristo Jesus.

 

A visita a Roma, os escritos dos místicos e os escritos dos Pais da Igreja, especialmente Agostinho, exerceram influencia significativa em sua vida, mas foi o estudo da Bíblia que o levou a crer que somente em Cristo estava sua salvação.

 

CONTRA A VENDA DE INDULGÊNCIAS

Em 1517, Johann Tetzel, o astuto agente do arcebispo Alberto, começou a venda de indulgencias em Juterbock, próximo a Wittenberg. O arcebispo Alberto receberia metade e a outra metade iria para o papa Leão X ajudar a pagar pela construção da Basílica de São Pedro em Roma. Lutero e os que o seguiam na recém-descoberta da justificação somente pela fé revoltaram-se com a exploração do povo por esse sistema nefasto de vender a salvação e decidiram fazer um protesto público. Tetzel ensinava que o arrependimento não era necessário para quem comprasse uma indulgencia, por si mesma capaz de dar perdão completo de todo tipo de pecado, até mesmo de pessoas já mortas, desde que um parente comprasse uma indulgencia em nome do falecido.

 

Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou suas 95 Teses na porta da Igreja do castelo de Wittenberg. Nelas condenava os abusos do sistema de venda de indulgencias e desafiava a todos que tomassem conhecimento delas para um debate sobre o assunto.

 

Publicadas as Teses, Tetzel procurou usar a força da ordem dominicana para silenciar Lutero, que encontrara apoio na Ordem Agostiniana. Lutero foi obrigado a debater o problema perante os membros de sua ordem, em Heidelberg, em 1518, mas pouco resultou desse debate, a não ser a ampliação do círculo daqueles que tinham aceitado as suas ideias.

 

A DESILUSÃO COM O PAPADO

Outrora Lutero havia sido como ele mesmo afirmou “Um dos papistas mais entusiastas”, pronto para queimar qualquer herege que difamasse a missa e o celibato do papa. A desilusão dele com o papado evoluiu de sua descoberta do Evangelho, baseada no estudo da Bíblia. O mais tardar em 1521, embora já tivesse identificado o papa e seu sacerdócio com “o reino do demônio e o governo do anticristo”, ainda assim insistia em que ninguém deveria se opor ao papa deliberadamente. O papado era uma praga, uma punição permitida pela “irada providência” de Deus; devia ser suportado com toda a paciência. À medida que ele envelhecia sua polêmica contra Roma tornava-se mais acirrada. Ele se referiu ao Papa Paulo III como “Vossa Diabolicíssima”. O papa e seus associados não eram pelo menos membros da Igreja? Sim, tanto quanto o cuspe, o catarro, o fedor, a cicatriz, a varíola, as úlceras e a sífilis são membros do corpo. Lutero nunca teve “papas na língua”. Mas devemos lembrar que teve o mesmo tipo de ataque injurioso lançado contra ele por parte dos bispos de Roma.

 

O protesto de Lutero contra a Igreja Romana não foi fundamentalmente moral, como o de Erasmo e de outros reformadores, mas sim teológico. A graça de Deus era a graça de Deus. Não podia ser comprada, vendida ou parcelada em indulgências. “Se o papa tem o controle sobre as almas no purgatório, por que ele não abre os portões e as deixa sair?” Ironizava Lutero. O papado, que era de origem humana e não divina, havia se apropriado indevidamente de uma prerrogativa que pertencia somente a Deus, a salvação das pessoas. A igreja tornara-se um fim em si mesma. A Palavra de Deus passara a ser cativa aos caprichos humanos do poder eclesiástico da igreja. Contra a concepção romana da igreja, Lutero insistia na prioridade do evangelho.

 

OS DEBATES COM A IGREJA ROMANA

Um aliado valioso que muito complementou com sua argumentação a audácia de Lutero, chegou a Wittenberg para ensinar grego, em 1518. Aos 21 anos Filipe Melanchton (1497-1560) já conhecia bem as línguas clássicas e o hebraico. Enquanto Lutero foi a grande voz profética, Melanchton foi o teólogo da Reforma. Ele e outros professores da faculdade de Wittenberg defenderam lealmente as opiniões de Lutero.

 

No outono de 1518, Lutero dizia para Melanchton, que a única autoridade no debate que se aproximava não seria nem o papa nem a Igreja, mas seria a Bíblia. Não fosse, porém, a ajuda de Frederico, o Eleitor da Saxônia, um dos que tinham direito a voto para eleger o imperador do Sacro Império Romano, ele teria fracassado diante dos dominicanos.

 

Quando Lutero foi intimado a comparecer perante a Dieta de Augsburgo em 1518, Frederico prometeu dar todo o seu importante apoio ao bravo reformador.

 

O papa não calculava a extensão do apoio popular a Lutero na Alemanha. Na Dieta Lutero enfrentou o cardeal Cajetano, que lhe pediu a retratação de suas opiniões, mas o reformador se recusou a fazê-lo a menos que fosse convencido pelas Escrituras que suas teses eram falsas. Ele também negou que o papa fosse autoridade final em questões de fé e moral.

 

Em 1520, Lutero resolveu levar o assunto ao povo alemão com a publicação de três panfletos. O “Apelo à Nobreza Germânica” atingia a hierarquia da Igreja. Roma estabelecera que a autoridade espiritual era superior à temporal, que somente o papa poderia interpretar as Escrituras e que ninguém a não ser o papa poderia convocar um Concílio. Depois de expor os argumentos apresentados, Lutero passou a demoli-los a partir das Escrituras. Para ele os príncipes deveriam reformar a Igreja, sempre que necessário, o papa não poderia interferir nos negócios civis e todos os cristãos eram sacerdotes espirituais de Deus que podiam interpretar as Escrituras e tinham direito de escolher seus próprios sacerdotes.

 

Em outubro Lutero publicou o “Cativeiro Babilônico”, no qual mais incisivo, desafiava o sistema sacramental de Roma. O primeiro fora um ataque à hierarquia, mais este atingia o centro do sistema romano – os sacramentos como meios de graça quando ministrados pelo sacerdócio. Lutero destacava somente a validade da Ceia do Senhor e o Batismo.

 

Em junho de 1520, Leão X lançou a bula Exsurge Domine, que mais tarde resultou na excomunhão de Lutero. Os seus livros também foram queimados em Colônia. Para não ficar atrás nessa disputa, Lutero prontamente queimou em público a bula de Leão X no dia 10 de dezembro de 1520.

 

Carlos V, o novo Imperador do Sacro Império convocou então uma dieta imperial para Worms na primavera de 1521, na qual Lutero deveria comparecer para responder por suas ideias. Lutero foi a Worms com a garantia de proteção de Frederico, Eleitor da Saxônia e de outros príncipes germânicos. Novamente ele se recusou a se retratar, a menos que fosse convencido de seu erro pelo “Testemunho das Escrituras” ou pela razão. Disse que se basearia somente nisso e pediu ajuda a Deus.

 

Seus amigos o sequestraram no caminho de volta para Wittenberg e o levaram para o castelo de Wartburg, onde ficou até 1522. Após sua partida de Worms, a Dieta publicou um edito ordenando a todo súdito do Imperador a prender Lutero e encaminhá-lo às autoridades. A leitura de seus escritos foi proibida pela Igreja de Roma.

 

Quando Lutero considerou a Igreja como uma instituição civil, portanto de jurisdição estatal, o interesse dos príncipes foi sedimentado; as terras pertencentes a igreja foram secularizadas. Todavia deve-se notar que esse procedimento só foi adotado pelos príncipes alemãs do Norte, pois os do Sul permaneceram católicos.

 

Os príncipes que seguiam o reformador conseguiram levar a Dieta de Speier, em 1526, a estabelecer, até que um concílio geral se reunisse, que o governante de cada estado estaria livre para seguir a fé que sentisse ser a mais correta. O principio de que cada governante escolheria a religião de seu estado, foi temporariamente adotado. Talvez o fato de o Imperador Carlos V estar lutando para impedir que o seu inimigo francês, Francisco I, ganhasse o controle sobre a Itália, durante a década de 1520, e a ausência da maioria dos príncipes católicos da Dieta tenham contribuído para essa decisão, que resultou no rápido crescimento do movimento luterano.

 

Uma segunda Dieta realizada em Speier em 1529 revogou a decisão da dieta anterior e esclarece que a fé católica romana era por lei a única fé. Os seis príncipes seguidores de Lutero e representantes de 14 cidades independentes leram um “Protesto”. A partir daí foram chamados de “Protestantes” por seus opositores. Veio daí a palavra “Protestante”.

 

Em 1530 reuniu-se a Dieta de Augsburgo. Com a aprovação de Lutero, Melanchton elaborou a “Confissão de Augsburgo” e apresentou-a à Dieta. Transformada em credo oficial da Igreja Luterana, foi ela o primeiro dos sete credos que fizeram do período entre 1517 e 1548 o grande período de formulação doutrinária do protestantismo.

 

A RUPTURA COM A IGREJA CATÓLICA

A ruptura de Lutero com a Igreja de Roma não ocorreu na Dieta de Worms quando ele declarou sua consciência cativa a Palavra de Deus, mas dois anos antes, no debate de Leipzig (julho de 1519). Seu oponente era o infame e muito prepotente John Eck, cujo nome em alemão significa “canto”; daí a declaração de que em Leipzig, Eck encurralou Lutero num canto. Lutero era o melhor estudioso da Bíblia, mas Eck era o melhor historiador da Igreja. Eck acusou Lutero de advogar certas teses de João Hus, que havia sido condenado cem anos antes no Concílio de Constança, e pelas quais Hus foi queimado vivo. Embora Lutero protestasse não estar defendendo Hus, Eck continuou pressionando-o nesse sentido. Durante o intervalo do almoço, Lutero examinou os registros do Concílio de Constança e descobriu, para sua grande surpresa que Eck estava certo, ele estivera defendendo a mesma posição de Hus. Na sessão da tarde Lutero deixou a plateia espantada ao declarar “todos nós somos hussitas!”. Agora Lutero estava verdadeiramente encurralado, porque Eck o havia forçado a se aliar a um herege condenado e a repudiar tanto a autoridade dos concílios gerais quanto a do papa. Para Lutero, os velhos pilares da autoridade haviam sido demolidos. Desde então sua teologia toda foi construída sob o fundamento da sola escriptura.

 

O princípio da sola escriptura destinava-se a salvaguardar a autoridade das Escrituras daquela dependência servil à igreja, que de fato havia tornado a Bíblia inferior à igreja. A Igreja, longe de ter prioridade sobre as Escrituras, é na verdade criação das Escrituras, nascida no ventre das Escrituras. Ao colocar a Bíblia acima dos papas e dos concílios, Lutero estava eliminando a tradição da Igreja? Não, absolutamente. Ele de fato rejeitou a teoria de duas fontes da tradição, desenvolvida mais tarde no Concílio de Trento, isto é, que ao lado da tradição incluída nas Escrituras, há outra extrabíblica, oral, derivada das instruções de Jesus aos apóstolos após a Páscoa e transmitida às gerações que se sucederam pelo magistério da Igreja.

 

A TRADUÇÃO DA BÍBLIA PARA O ALEMÃO

Durante sua residência forçada no castelo de Wartburg, de maio de 1521 a março de 1522. Usando a edição do Novo Testamento grego feita por Erasmo, completou em menos de um ano sua tradução alemã do Novo Testamento. A Bíblia toda, inclusive os apócrifos, foi traduzida do original para o alemão e concluída em 1534. Lutero também escreveu Sobre os Votos Monásticos, em que convocou monges e freiras a repudiarem seus votos iníquos, a deixarem a clausura e se casarem.

 

A REDE DE PROTEÇÃO A LUTERO

Porque Lutero não teve o mesmo fim de outros que se rebelaram contra a Igreja de Roma? Porque não foi preso e queimado na fogueira destinada aos hereges? Poderosos príncipes feudais da Alemanha abraçaram a causa de Lutero. O protegeram em castelos, com muralhas e soldados.

 

Os príncipes feudais tinham bons motivos terrenos para apoiar Lutero. Afinal se tinham rompido com a Igreja, então ganhavam ótimo pretexto para confiscar os bens do clero. As terras e vinhedos, as joias, o ouro e os prédios, as plantações e o gado, os diretos feudais dos bispos e abades, tudo passava a pertencer aos príncipes.

 

Nesse período a Alemanha ainda não era um estado nacional, coisa que só aconteceu em 1871. Era dividida em pequenos países governados por príncipes feudais. Todos faziam parte de uma entidade chamada Sacro Império Romano-Germanico.

 

A JUSTIFICAÇÃO SOMENTE PELA FÉ

A doutrina da justificação somente pela fé caiu como uma bomba na paisagem teológica do catolicismo medieval. Ela arrasou toda a teologia dos méritos e, na verdade, a base penitencial-sacramental, da própria igreja. Não é de surpreender que Jacob Hochstraten, inquisidor dominicano de Colônia, considerasse blasfêmia Lutero descrever a união da alma com Cristo como um matrimônio espiritual baseado na fé somente. Como pode Cristo ser unido a um pecador? Isso significa tornar a alma “uma prostituta e adúltera” e o próprio Cristo “um alcoviteiro e protetor covarde da desgraça dela.” Hochstraten estava chocado com o significado da mensagem de Lutero.

 

Então, será que Lutero não tinha lugar algum para as boas obras? O Duque Jorge da Saxônia acreditava que não, quando observou: “A doutrina de Lutero é boa para os que estão morrendo, mas não é nada boa para os que estão vivos”. Erasmo foi menos indulgente: “Os luteranos buscam apenas duas coisas – riqueza e esposas. Para eles o evangelho significa o direito de viverem como desejarem”. Ao ressaltar tão fortemente a iniciativa de Deus na salvação, será que Lutero abriu a porta ao antinomismo, a visão de que os cristãos são isentados pela graça sem a necessidade de observar qualquer lei moral.

 

Lutero estava consciente da acusação e negou vigorosamente que fosse culpado disso. Enquanto de maneira alguma somos justificados pelas obras, elas devem seguir-se a fé como seu fruto característico.

 

O fruto da justificação é a fé ativa no amor. Tal amor é dirigido em primeiro lugar não a Deus, na esperança de conseguir algum mérito para a salvação, mas ao próximo, porque “o cristão vive não em si mesmo, mas em Cristo e em seu próximo”. Lutero incitava os cristãos a realizarem boas obras a partir de um amor espontâneo, em obediência a Deus por causa dos outros. Em outras palavras, a justificação somente pela fé liberta-me para amar meu próximo desinteressadamente, por causa dele mesmo, como meu irmão ou irmã, não como meio calculado para alcançar a salvação. Visto que não mais carregamos o insuportável peso da auto-justificação, estamos livres “para ser de Cristo uns para os outros”, para nos consumirmos em favor dos outros, mesmo como Cristo também nos amou e deu a si mesmo por nós.

 

A PREDESTINAÇÃO NO ENTENDIMENTO DE LUTERO

A tensão entre a livre eleição de Deus e a resposta humana genuína está presente já no Novo Testamento. Entretanto, Agostinho, em sua luta clássica com Pelágio, foi quem primeiramente desenvolveu uma doutrina da predestinação.

 

Para Pelágio, a salvação era uma recompensa, o resultado das boas obras livremente realizadas pelos humanos. A graça estava dentro da própria natureza humana. Em outras palavras, a graça era simplesmente a capacidade natural que todos os seres humanos possuem de fazer a coisa certa, de obedecer os mandamentos e assim obter a salvação. Agostinho, por outro lado, via um grande abismo entre a natureza, em seu estado caído e a graça. Agostinho entendia a salvação como a livre e surpreendente dádiva de Deus ao homem. Se, entretanto a fonte de nossa conversão a Cristo reside não em nós mesmos, mas somente na vontade de Deus, porque alguns reagem positivamente ao evangelho, enquanto outros o desprezam? Essa pergunta levou Agostinho à discussão paulina da eleição, exposta em Romanos 9 a 11. Aqui ele encontra a base para sua própria doutrina da predestinação: da massa da humanidade decaída, Deus escolhe alguns para a vida eterna e omite outros que estão, assim, destinados à destruição, e tal decisão é feita independente de obras ou méritos humanos.

 

Durante os mil anos transcorridos entre Agostinho e Lutero, a principal corrente da teologia medieval dedicou-se a dissolver o severo predestinacionismo de Agostinho. A maioria dos teólogos tentou modificar a doutrina de Agostinho, enfraquecendo a base da predestinação. Alexandre de Hales recorreu ao principio da equidade divina: “Deus relaciona-se de igual para igual com todos” Outros afirmavam que a predestinação era subordinada ao conhecimento prévio, ou seja, Deus elege aqueles que sabe com antecedência que receberão méritos de seu próprio livre-arbítrio. Nenhuma dessas teorias da salvação era “puramente” pelagiana, porque todas requeriam a assistência da graça divina. Ainda assim o fator crucial continuava sendo a decisão humana de responder positivamente a Deus, em lugar da livre e desacorrentada decisão de Deus de escolher quem desejasse.

 

A doutrina da justificação sustentada por Lutero rompeu decisivamente com o modelo agostiniano de distribuição progressiva da graça. Somos justificados não porque Deus nos está tornando gradualmente justos, mas porque fomos declarados justos com base no sacrifício expiatório de Cristo. Contudo, a partir do principio anterior da sola gratia, Lutero, Zuínglio e posteriormente Calvino permaneceram firmes com Agostinho contra os que exaltam o livre-arbítrio humano à custa da livre graça de Deus. Nesse aspecto, a linha principal da Reforma protestante pode ser vista como uma “aguda agostinianização do cristianismo”. Alguns historiadores consideram a doutrina da predestinação de Lutero uma aberração de seus temas principais, ou na melhor das hipóteses, um pensamento meramente auxiliar. Mas Lutero via o assunto de maneira diferente.

 

Lutero nunca negou a existência do livre-arbítrio, mas sempre colocado em assuntos que não se relacionam com a salvação. Ele disse assim a Erasmo: “Sem dúvida você está certo em conferir algum tipo de arbítrio, mas imputar-lhe um arbítrio que seja livre nas coisas de Deus é demais”.

 

Segundo os padrões humanos Deus seria injusto ao escolher alguns para a perdição eterna independente de méritos. Ainda assim ninguém reclama da primeira “injustiça”, porque o interesse pessoal está em jogo. Em ambos os casos, Deus é injusto pelos padrões humanos, mas justo pelos seus. Lutero recusou-se a submeter Deus ao tribunal da justiça humana como se a Majestade, que é o criador de todas as coisas, tivesse de curvar-se a uma das escórias de sua criação, o homem. “Deixem Deus ser bom”, clamava Erasmo, moralista. “Deixem Deus ser Deus”, replicava Lutero, o teólogo.

 

Embora Lutero nunca tenha suavizado sua doutrina da predestinação, ele de fato tentou estabelecer o mistério no contexto da eternidade. Lutero nunca admitiu que os inescrutáveis julgamentos de Deus eram realmente injustos, mas sim que somos incapazes de aprender o quanto são justos.

 

A DOUTRINA CRISTOCÊNTRICA

O que deu a doutrina de Lutero o caráter reformador único foi sua base cristocêntrica radical. Já em 1515, ele estava ensinando a cristocentricidade das Escrituras: “aquele que ler a Bíblia deve simplesmente prestar atenção para não errar, pois as Escrituras podem permitir que sejam entendidas e conduzidas, mas que ninguém as conduza de acordo com suas próprias inclinações; antes que essa pessoa as leve para a fonte, isto é, a cruz de Cristo. Então certamente acertará o alvo”.

 

Cristo é ao mesmo tempo o centro e o Senhor das Escrituras. Enquanto as Escrituras como um todo tratam de Cristo, nem tudo nas Escrituras fala de maneira igualmente clara sobre Cristo.

 

O desprezo de Lutero pela Epístola de Tiago é famoso e ilustra mais ainda sua fixação em Cristo como centro do verdadeiro e apropriado das Escrituras. Lutero, lendo Tiago pelos olhos de Paulo, considerou insuficiente a teologia da graça esboçada de Tiago. “Fora com Tiago”, ele dizia. “Quase tenho vontade de jogar Tiago no forno, como o sacerdote em Kalenberg fez (uma referencia a um pastor local que em certa ocasião, usou as estátuas dos apóstolos como lenha)”.

 

A IGREJA INVISÍVEL

Lutero sustentava que o evangelho constituía a igreja, não o contrário, como Roma fazia crer. “O verdadeiro tesouro da igreja é o santo evangelho da glória e da graça de Deus”. Como Agostinho, Wycliffe e Hus antes dele, Lutero falava sobre a igreja invisível cujos membros reuniam todo o grupo dos predestinados para a salvação. A igreja se estende tanto no tempo quanto no espaço, e não está presa a nenhuma cidade, pessoa ou época. Seu fundamento é a eleição graciosa de Deus, revelada em Jesus Cristo e atestado nas Escrituras Sagradas: “A igreja não constitui a Palavra de Deus, mas é constituída pela Palavra”. Sua invisibilidade deriva do fato de que a própria fé é invisível (Hb 11.1).

 

Além de invisível, Lutero também falou da igreja como “oculta”. Esse é um tema bem mais complexo, que traz diversas conotações. Significa em primeiro lugar que a igreja, embora clara para Deus, está oculta do mundo. Numa metáfora audaciosa, Lutero disse que Deus não quer que o mundo saiba quando Ele dorme com sua noiva. Aos olhos da fé, a igreja é uma “donzela digna”, mas pelos padrões do mundo é uma pobre Cinderela cercada por muitos inimigos perigosos.

 

O caráter oculto da igreja também se estende à sua santidade. Ao contrário dos Anabatistas, Lutero nunca defendeu a idéia de uma igreja pura, composta apenas de santos discerníveis. Nesta era, a igreja é o corpo em busca da santificação, contendo ao mesmo tempo pecadores e santos, hipócritas e cristãos devotos, joio e trigo. A pureza da igreja não está sujeita a exame nem depende das qualificações morais dos membros ou dos ministros. “Nossa santidade está nos céus, onde Cristo está; não no mundo, perante os olhos dos homens, como um produto de mercado.”

 

Lutero entendia que a continuidade da igreja estava estabelecida, não numa sucessão de bispos, mas numa sucessão de cristãos verdadeiros, voltando até Adão: “Sempre há um santo povo cristão na terra, em quem Cristo vive, trabalha e governa”. Além disso, a igreja é subserviente ao evangelho. A Palavra de Deus não pode existir sem o povo de Deus, nem seu povo sem sua Palavra. Mesmo na apóstata Igreja de Roma, Lutero reconhecia que o evangelho não havia sido completamente extinto. Pelo menos o batismo e as Escrituras permanecem, e isso sustentou as crianças e alguns idosos, mas apenas alguns, que no fim de suas vidas voltaram-se mais uma vez para Cristo, dizia Lutero.

 

A MUDANÇA DE COMPORTAMENTO

Sem dúvida alguma, Lutero foi um herói nacional alemão, tido em alta conta tanto por príncipes quanto por camponeses, humanistas e senhores feudais; seu comportamento nos anos seguintes afastou alguns daqueles que o tinham seguido tão prontamente no início do movimento de Reforma. Durante o tempo em que permaneceu em Wartburg, Nicolau Storch e Markus Stubner, conhecidos como profetas de Zwickau (Cidade ao leste da Alemanha), apareceram em Wittenberg e começaram a pregar ideias similares a algumas ideias anabatistas. Ensinavam que o Reino de Deus irromperia brevemente na terra e que seus seguidores teriam revelações especiais. Mesmo sob o risco de morte, Lutero retornou a Wittenberg em 1522. Depois de oito sermões contundentes, em que salientou a autoridade da Bíblia e a necessidade de uma mudança gradual na Igreja, Lutero derrotou os profetas de Zwickau. O setor radical da Reforma sentiu então que não poderia contar com o apoio de Lutero, que em 1535 rompeu deliberadamente com o movimento anabatista.

 

Ele já havia perdido também o apoio dos humanistas, como Erasmo de Rotterdam, em 1525. No início Erasmo apoiara a Reforma, mas recuou quando percebeu que as ideias de Lutero provocariam uma ruptura com Roma. Ademais discordava de Lutero quando este dizia que a vontade do homem estava tão escravizada pelo pecado que a iniciativa de salvação deveria partir de Deus. Em seu livro A Liberdade da Vontade, publicado em 1524, Erasmo ensinava a liberdade da vontade humana. Lutero negou a liberdade da vontade em seu livro A Escravidão da Vontade, publicado em 1524.

 

Os camponeses também se tornaram hostis a Lutero em 1525 quando este se opôs à sua revolta. Os camponeses tinham ouvido Lutero denunciar a autoridade da Igreja ao afirmar a autoridade das Escrituras e o direito do indivíduo de ir diretamente a Deus em busca da salvação, e assim aplicaram tais argumentos a seus problemas sociais e econômicos. O feudalismo trouxera muita opressão aos camponeses, os quais em seus “Doze Artigos”, de 1525, pediram uma reforma dos abusos feudais, que podiam ser confirmados como abusos na autoridade das Escrituras.

 

Inicialmente, em sua Admoestação à Paz, de abril de 1525, Lutero pediu aos camponeses que fossem pacientes e pediu aos senhores feudais para reduzirem os encargos sobre os camponeses. Quando Lutero percebeu que esse movimento social de caráter revolucionário poderia ameaçar a Reforma e subverter os fundamentos da ordem governamental até mesmo nas províncias protestantes, pediu aos príncipes, em seu panfleto Contra o Bando Assassino e Salteador, que pusessem fim a desordem. As autoridades fizeram uso da violência e massacraram aproximadamente cem mil camponeses. Os camponeses do sul da Alemanha consideraram esse acontecimento como uma traição de Lutero, e assim permaneceram na Igreja Católica.

 

O casamento de Lutero com a freira Catarina Bora em 1525, foi considerado um grande erro da parte do Reformador. Ele, no entanto, sempre entendeu que agiu corretamente, formando uma família. Seus seis filhos e os inúmeros estudantes convidados que enchiam sua casa foi sempre motivo de alegria para ele.

 

A ECLESIOLOGIA DE LUTERO

Lutero e Zuínglio se encontraram no outono de 1529, no que ficou conhecido como Colóquio de Marburg, no castelo de Marburg, de propriedade de Filipe de Hesse. Eles concordaram em 14 das 15 proposições, mas discordaram na questão da presença de Cristo nos elementos da Ceia. Para Zuínglio a Ceia era um memorial da morte de Cristo, mas para Lutero havia uma presença física de Cristo na comunhão, embora a substância do pão e do vinho não se alterasse. Ele argumentava que assim como o ferro embora fique vermelho-cereja quando aquecido, a substância do pão e do vinho não mudam, mas dentro e fora dos símbolos há uma presença física real de Cristo. Essa posição ficou conhecida como consubstanciação.

 

Lutero elaborou em 1529 o Catecismo Menor, uma abordagem concisa dos 10 mandamentos, do Credo dos Apóstolos, da Oração Dominical e de outros assuntos de teologia e liturgia.

 

No Cativeiro Babilônico da Igreja (1520), Lutero atacou o sistema sacramental do catolicismo medieval, sustentando a autenticidade de apenas dois sacramentos: o batismo e a ceia. Ele sustentava que a fé mesmo à parte dos sacramentos, era suficiente para a salvação: “Você pode crer mesmo sem ser batizado, porque o batismo não é nada mais do que um sinal externo que nos faz lembrar da promessa divina”. Lutero fez essa declaração em resposta ao sacramentalismo católico romano. Contudo ele mantinha em alta consideração o caráter objetivo dos sacramentos. O batismo e a ceia são garantias da promessa de Deus.

 

A maior contribuição de Lutero à eclesiologia protestante foi sua doutrina do sacerdócio de todos os cristãos. Contudo, nenhum outro elemento de seu ensino é tão mal compreendido. Para alguns, isso significa apenas que não há mais sacerdotes na igreja; é a secularização do clero. Dessa premissa, alguns grupos notadamente os Quacres, defendem a abolição do ministério como ordem distinta dentro da igreja. Mais comumente, as pessoas acreditam que o sacerdócio de todos os cristãos implica que cada cristão é seu próprio sacerdote e, assim possui “direito a um julgamento privado” em assuntos de fé. Ambos os casos constituem perversões da intenção de Lutero. A essência de sua doutrina pode ser expressa uma única frase: todo cristão é sacerdote de alguém, e somos todos sacerdotes uns dos outros.

 

CONSELHOS AOS PREGADORES

Lutero recuperou a doutrina paulina da proclamação: a fé vem pelo ouvir, o ouvir a Palavra de Deus. Mas como ouvirão se não há um pregador? (Rm 10.17). Lutero não inventou a pregação, mas elevou a um novo status dentro do culto cristão. Ele considerou significativo que mesmo o povo comum falava de ir à igreja para ouvir a missa, não para vê-la. O sermão era a melhor e mais necessária parte da missa. Lutero investiu-o de uma qualidade quase sacramental tornando-o o núcleo da liturgia. O culto protestante centrava-se ao redor do púlpito e da Bíblia aberta, com o pregador encarando a congregação, não em volta de um altar com o sacerdote realizando um ritual secreto. O ofício da pregação era tão importante que até os membros banidos da igreja não deviam ser excluídos de seus benefícios: “A Palavra de Deus deve permanecer livre para ser ouvida por todos”.

 

Os livros de Lutero estão cheios de conselhos para os pregadores. As três marcas de um bom pregador são estas: ele se levanta, fala e sabe quando se calar!  Deixem-no falar vigorosa e claramente, não como se tivesse algo tampando sua boca. A Igreja é uma casa de fala, não uma casa de fala farinácia! Mais importante ainda, o pregador deve ter algo válido para dizer. Que pregador seja bom no texto, bem versado nas Escrituras. Lutero denunciava os pregadores “preguiçosos e ruins”, que pegavam todo seu material de outros, de auxílios homiléticos e de livros de sermão, sem orar, ler nem buscar as Escrituras para si mesmo. O sermão não devia ser expresso em jargões teológicos, mas na linguagem clara e viva do povo. Acima de tudo a pregação deve ser verdadeira em seu próprio conteúdo, que é Cristo. Apenas assim pode cumprir sua tarefa como parte central de todo o culto divino.

 

A VOLTA A CIDADE NATAL

No início de janeiro de 1546, aos 62 anos, Lutero retornou à cidade natal, Eisleben, para resolver uma disputa política entre os príncipes de Mansfeld. A viagem de Wittenberg a Eisleben era de 130 km. Lutero, com a saúde extremamente debilitada, foi acompanhado dos três filhos, Hans, Martinho e Paulo, e também de um amigo de confiança. Justus Jonas. Dois dias após a partida, ainda a caminho, Lutero escreveu para a esposa Kate, falando dos riscos da viagem.

 

Em 14 de fevereiro, Lutero teve sucesso em efetuar a reconciliação entre os príncipes feudais. Três dias depois, o acordo foi assinado e Lutero preparou-se para voltar para Wittenberg. De súbito, ficou doente e desfaleceu de estafa. Aparentemente sabia que o fim estava próximo, como as pessoas às portas da morte muitas vezes sabem. Ele comentou que os bebês morriam aos milhares, “mas quando eu, Dr. Martinho, morro aos 63 anos, não creio que haja mais do que 60 ou 100 no mundo todo morrendo comigo. Tudo bem, nós os velhos, devemos viver tanto para ver o diabo na retaguarda”.

 

Depois da refeição da noite, Lutero subiu as escadas e deitou-se para orar. A dor aumentava. Seus amigos faziam compressas com toalhas quentes. Ele teve uma série de ataques, e os médicos foram chamados. Depois de algumas horas de sono, por volta de 1 hora Lutero acordou com dores. Ele repetiu em latim o quinto versículo do Salmo 31: “In manus tuas commendo spiritum meum, redimisti me, domine Deus veritais”. “Nas tuas mãos entrego o meu espírito; tu me remiste, Senhor, Deus da verdade”. Jonas perguntou-lhe: “Reverendo padre, você morrerá firmemente em Cristo e na doutrina que você pregou?”. Lutero respondeu alto o suficiente para todos no quarto ouvirem: “Sim!”. Ao amanhecer, estava morto.

 

O corpo de Lutero foi posto num caixão de estanho e retornou a Wittenberg, onde o colocaram para descansar na catedral em cuja porta ele havia afixado as 95 teses, aproximadamente 30 anos antes. Melanchton proferiu a mensagem no funeral, estabelecendo o reformador morto no contexto mais amplo possível da história da Igreja, até mesmo na história da salvação. Os patriarcas, juízes, reis e profetas do Antigo Testamento haviam sido sucedidos por João Batista, o próprio Jesus e os apóstolos. O Dr. Martinho também deveria ser incluído “nessa bela ordem e sucessão de indivíduos na Terra”. De fato, afirmou Melanchton, o puro evangelho de Cristo fora mais claramente pregado por cinco homens: Isaías, João Batista, Paulo, Agostinho e o Dr. Lutero.

 

AS OPINIÕES SOBRE LUTERO

Certa vez, Paul Althaus, teólogo alemão, referiu-se a Lutero como um “oceano”. Essa imagem aplica-se não somente a enorme produção literária de Lutero, mas também a sua poderosa originalidade e profundidade nos assuntos que se propunha a escrever. Apenas dois outros teólogos na história da igreja, Agostinho e Aquino, aproximam-se da estatura de Lutero. Apenas os documentos do Novo Testamento, foram estudados com tanto escrutínio quanto as obras do reformador alemão. Por isso ele é chamado de “oceano”, onde podemos nos afogar de conhecimento.

 

Foram feitas diversas tentativas de interpretar Lutero sob o aspecto de sua influencia mais tarde na historia. A igreja Católica o retrata com um monge louco, um psicótico demoníaco que derrubou os pilares da Igreja Mãe. Para os protestantes ortodoxos, Lutero foi o cavaleiro divino, um Moisés, um Sansão (demolindo o templo dos filisteus), um Elias, até mesmo o Quinto Evangelista. Para os pietistas, foi o bondoso apóstolo da conversão. Os nacionalistas alemães celebravam-no como herói do povo e “pai de seu país”. Significativamente os textos de Lutero podem ser citados em defesa de cada uma dessas caricaturas. Nenhuma delas, entretanto, considera seriamente a própria auto-compreensão de Lutero, que é onde uma avaliação satisfatória de sua teologia deve começar.

 

Lutero nunca quis fundar uma nova denominação ou igreja, ele sempre viu a si mesmo como um fiel e obediente servo da Igreja Católica. Daí seu profundo desgosto pelo fato de os primeiros protestantes, na Inglaterra e na França, assim como na Alemanha terem sido chamados de “Luteranos”.

 

Lutero fez esse pedido:

“A primeira coisa que peço é que as pessoas não façam uso de meu nome e não se chamem de luteranas, mas cristãs. Que é Lutero? O ensino não é meu. Nem fui eu crucificado por ninguém. Como eu, miserável saco fétido de larvas que sou, cheguei ao ponto em que as pessoas chamam os filhos de Cristo por meu perverso nome?”

 

Essa renúncia, escrita em 1522, não era o protesto de uma falsa humildade, mas, sim, um real esforço de reduzir um culto à personalidade, já em surgimento, e dirigir a atenção à fonte do pensamento do reformador. “O ensino não é meu”. Compreender o que Lutero quis dizer com essa afirmação é apreender o impulso central de sua teologia da Reforma.

 

Num sermão do mesmo ano, Lutero explicou sua percepção acerca de seu próprio papel nos eventos da Reforma:

 

“Simplesmente ensinei, preguei, escrevi a Palavra de Deus; não fiz mais nada. E então enquanto eu dormia, ou bebia cerveja em Wittenberg a Palavra enfraqueceu tão intensamente o papado que nenhum príncipe ou imperador jamais fez estrago assim. Não fiz nada, a Palavra fez tudo”. 

 

Tal afirmação parece fantástica à mente moderna, para a qual Lutero representou quando muito, um homem de ação. Desafiando o papa, abrandando os camponeses, intervindo em crises políticas, ensinando, pregando, debatendo, casando e dando-se em casamento. Lutero não era apenas um ouvinte da Palavra, mas certamente um cumpridor dela. Contudo, o ouvir, o receber, era primordial para Lutero. “A fé vem pelo ouvir”, é talvez o melhor resumo de sua descoberta da Reforma.

 

Lutero não via a si mesmo como agente revolucionário eclesiástico. O fato de o papado e o império terem sido abalados, se não destruídos, pelas palavras de um simples monge alemão, segundo ele foi apenas um subproduto providencial de sua vocação anterior. “Não fiz nada. Deixei a Palavra agir.” Ele ouviu a Palavra porque era sua tarefa fazê-lo e porque veio a crer que a salvação de sua alma dependia disso. Lutero não se tornou reformador porque atacou a venda de indulgências. Ele atacou as indulgências porque a Palavra já havia criado raízes profundas em seu coração.

CONCLUSÃO
Sem dúvida alguma, Lutero foi um gigante da igreja devido sua influencia tanto sobre épocas posteriores quanto sobre o seu próprio tempo. As igrejas luteranas da Alemanha e dos países escandinavos nasceram de seu trabalho. Foi para elas que ele elaborou os Catecismos Maior e Menor; preparou apostilas para ajudar os ministros em seus sermões; desenvolveu um sistema de governo eclesiástico; deu a Bíblia ao povo alemão, que em muito contribuiu para padronizar a língua, além de compor belos e grandiosos hinos, como “Castelo Forte”, próprio para o cântico congregacional.

 

Além disso, estimulou Melanchton a criar um sistema universal de educação elementar para que o povo pudesse aprender a Bíblia em alemão; a execução dessa tarefa foi recomendada aos governos das cidades alemãs numa carta em 1524; em 1530, ele escreveu acerca da obrigação dos pais de enviarem seus filhos à escola. A educação elementar compulsória teve nesses esforços seus primórdios. Interessou-se ainda pelas escolas secundárias e pela educação universitária.

 

Lutero recolocou a pregação em seu devido lugar, restabelecendo um meio de instrução espiritual que havia sido largamente usado na Igreja Primitiva e abandonado pela Igreja Católica. Acima de tudo, levou sua geração a perceber que a cultura não era apenas uma questão da razão, mas da regeneração pela fé em Cristo. Lutero não repudiou o individualismo da Renascença, mas fez dele um assunto espiritual ao propor que pela fé em Jesus Cristo, o individuo podia manter uma comunhão salvífica com Deus. No lugar da autoridade exclusiva da igreja, ele apresentou a Bíblia como a regra de fé e prática infalível que todo crente-sacerdote poderia usar para se orientar em questões de fé e moral. Lutero não negou a necessidade de uma relação comunitária entre o indivíduo e os outros membros na Igreja; ao contrário, insistiu sempre na importância da comunhão com outros membros do Corpo de Cristo. A Igreja deveria estar debaixo da autoridade de Cristo e não do papa.

 


  
J. DIAS

  

FONTES:

História Antiga Medieval e Moderna – SOL Editora

Nova História Crítica – Mário Furley Schmidt – Ed. Nova Geração

O Cristianismo Através dos Séculos – Earle E. Cairns – Ed. Vida Nova

Teologia dos Reformadores – Timothy George – Ed. Vida Nova

www.santovivo.net

 


 

 

 


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