SANTO VIVO - ESTUDOS BÍBLICOS
Vladimir Herzog - Manchas da Torutra

VLADIMIR HERZOG – MANCHAS DA TORTURA

*J. Dias


O BÊBADO E A EQUILIBRISTA

Caía a tarde feito um viaduto,

e um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos.

A lua tal qual a dona do bordel,

pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel.

E nuvens lá no mata-borrão do céu,

chupavam manchas torturadas, que sufoco.

Louco, o bêbado com chapeu côco,

fazia reverencias mil, prás noites do Brasil, meu Brasil.

Que sonha com o volta do irmão do Henfil,

com tanta gente que partiu num rabo de foguete.

Chora a nossa pátria mãe gentil,

choram Marias e Clarices no solo do Brasil,

mas sei que uma dor assim pungente,

não há de ser inultimente a esperança,

dança na corda bamba de sombrinha

e em cada passo dessa linha pode se machucar,

azar, a esperança equilibrista

sabe que o show de todo artista tem de continuar.


"O Bêbado e a Equilibrista", música de João Bôsco e Aldir Blanc, retrata a violência sofrida pelo povo brasileiro durante o longo período da ditadura militar que se instalou no pais no ano de 1964. Quantos precisaram partir "num rabo de foguete"? Quantos viraram "manchas torturadas"? Quantos perderam suas vidas simplesmente por expressarem sua opinião contrária a dos donos do poder?


Realmente, durante este negro período da história recente do país, nós caminhavamos como a equilibrista, numa linha, sabendo que a qualquer momento poderia cair e a queda poderia ser fatal. A esperança sempre dançando na corda bamba, sabendo que a cada passo poderia se machucar, mas nunca desistindo de lutar, e a luta não foi inglória. Se hoje temos um país democrático, devemos muito aos que lutaram sabendo que a esperança não seria inútil.


As "Marias", são inúmeras mães que perderam seus filhos nos porões da tortura. Clarices, está se referindo a Clarice Herzog, esposa de Vladimir Herzog, uma das vitimas inocentes das torturas cometidas contra os cidadãos.


Queremos aqui contar um pouco da história de Vladimir Herzog, para que as pessoas tomem conhecimento de como agia a ditadura contra o cidadão. Ninguém era inocente perante a lei da tortura e do assassinato. O assassinato, quando acontecia durante as sessões de espancamento e outras atrocidades, era chamado de "acidente de trabalho". Herzog foi mais uma vítima de "acidente de trabalho" dos torturadores.

Vlado, como era conhecido, era diretor de jornalismo da TV Cultura em São Paulo. Não era integrante de nenhum grupo terrorista. Fazia parte de uma militância amena. Por isso Vlado não esperava que houvesse motivos para ser preso e torturado. Clarice, mulher de Herzog, conta que ele passara a frequentar as reuniões de discussão do PCB havia dois anos, por não ver outra forma de contestar a ditadura. “Ele identificava duas forças organizadas: a Igreja Católica e o Partido Comunista do Brasil. Como era judeu, não teve outra opção", conta Clarice.

Na manhã do sábado, 25 de outubro, a ditadura militar fazia mais um prisioneiro. Procurado na noite anterior, Herzog, conseguira adiar para o dia seguinte sua apresentação ao DOI-Codi de São Paulo. Ele compareceu às 8 horas da manhã, sozinho, já que achava que não havia nada contra ele. Logo após sua apresentação os agentes do governo militar iniciaram a sessão de tortura. Amoníaco na boca para sufocar, choque elétrico no corpo para doer nervos e órgãos. No meio da tarde já estava morto, vitima de torturas que os agentes do DOI tentaram acobertar com a usual farsa do suicidio – era o 38º “suícida” produzido pelos porões da ditadura. Seu algoz: o "capitão Ramiro" (codinome do delegado Antônio Grancieri. 

Fotos mostrando o cadaver de Herzog enforcado com um cinto preso a uma grade a 1,63 metro do chão eram mostradas aos demais presos. Além das pretensas provas do suícidio, a tese da infiltração comunista nas instituições era alardeado no cárcere. “Os agentes nos diziam que do comando do Partido Comunista, acima dos tais dirigentes que já estavam presos, viriam pessoas insuspeitas, como um cardeal, um governador e um general”, afirma o jornalista Paulo Markun, colega de Herzog na Tv Cultura e também diretor, detido naquela época. Era uma referencia clara a dom Paulo Evaristo Arns, ao governador de São Paulo, Paulo Egídio Martins, e ao general Golbery do Couto e Silva.


O caso Vlado causou comoção nacional. Na sexta-feira, 31 de outubro de 1975, barreiras bloqueavam os acessos à praça da Sé, centro de São Paulo. Estava marcado para a Catedral da Sé um culto ecumênico em memória de Vladimir Herzog. A força policial era ostensiva e o clima tenso. “Antes de começar, chegaram tres homens para dizer que eu deveria desistir e que havia 500 agentes na praça para atirar em quem dissesse ‘abaixo a ditadura," relata dom Paulo Evaristo Arns, que iria realizar o culto ao lado do rabino Henri Sobel. “Eu disse: ‘Vocês usam armas, nós usamos o coração’.” Dias antes no enterro de Herzog, o rabino Sobel contestara a versão oficial para a morte, negando-se a enterrar Herzog na área do Cemitério Israelita destinada aos suicidas.

O Sindicato dos Jornalistas havia redigido uma nota à imprensa tão diplomática quanto desafiadora: “O Sindicato dos Jornalistas deseja notar que, perante a lei, a autoridade é sempre responsável pela integridade física das pessoas que coloca sob sua guarda, e reclama um fim a essa situação, em que jornalistas profissionais, cidadãos com trabalho regular e residencia conhecida, permanecem sujeitos ao arbítrio de orgãos de segurança”. “Todos os cuidados eram necessários para que a gente denunciasse o crime, sem dar pretexto para fecharem o sindicato”, diz Audálio Dantas, presidente da entidade na época. O sindicato já denunciara as prisões que se sucederam ao discurso da "Pá de Cal". A imprensa noticiou a morte de Herzog com destaque, indo muito além das notas oficiais secas que costumavam registrar “suicidios” e mortes em "confronto” de vitimas da repressão. Era a primeira vez que isso acontecia desde que foi instalada a censura prévia nos jornais.

Apesar das barreiras e dos policiais, oito mil pessoas compareceram à Catedral da Sé. “Foi uma cerimônia comovente, todo mundo que estava na Catedral chorou”, relembra dom Paulo, que já atuava ostensivamente na defesa de presos políticos desde novembro de 1970. No fim, o que poderia ter se transformado num tumulto sangrento, entrou para a História como a primeira grande manifestação popular desde o AI-5, e é uma peça importante no quebra-cabeça da abertura política brasileira.


*Editor do Site

www.santovivo.net

FONTE:
Revista Aventuras na História

 



      VLADIMIR HERZOG



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