SANTO VIVO - ESTUDOS BÍBLICOS
Estudo do Livro de Êxodo

ESTUDO DO LIVRO DE ÊXODO

J. DIAS

 

ANÁLISE

O nome do segundo livro do Pentateuco, ou Lei de Moisés, provém do título do Antigo testamento grego Exodos, que significa “saída” ou “partida” (19.1). O título é adequado porque a saída de Israel do Egito é o tema predominante do livro. Mas os hebreus deram outro título ao livro. Seguindo a prática do mundo antigo, o título hebraico, “São estes os nomes”, é derivado das duas primeiras palavras do versículo inicial (1.1).

 

O livro de Êxodo dá sequência ao registro da história antiga dos hebreus no Egito após a migração de Jacó (1.1-7). O livro começa três séculos e meio depois do final do livro de Gênesis. Não temos o registro do que aconteceu nesse longo período de silencio.

 

Êxodo é o elo indispensável que une de forma inseparável o Pentateuco. É a figura de Moisés que domina quase todo o relato do Êxodo. Os assuntos do sistema sacerdotal e da lei da santidade iniciados em Êxodo, por sua vez, se desenvolvem em Levítico. Também a história da caminhada de Israel para a terra prometida, a qual constitui a maior parte de Números, encontra seu princípio em Êxodo. Finalmente, acha-se em Deuteronômio um eco tanto de Números como de Êxodo. Por isso o livro de Êxodo se chama “O coração do Pentateuco”.

 

Embora Moisés seja a personagem humana principal das narrativas do livro, a verdadeira história é a obra redentora de Javé ao livrar Israel da escravidão no Egito e estabelecer um relacionamento de aliança com a nação. Esses atos de Deus indicam suas intenções de cumprir as promessas feitas a Abraão, Isaque e Jacó (3.7-16).

 

AUTOR

Embora em parte alguma do livro de Êxodo a autoria de Moisés seja citada, o livro inteiro da lei expressa no Pentateuco, que compreende principalmente a porção que se estende de Êxodo 20 até o livro de Deuteronômio, reivindica para si, em termos positivos a autoria mosaica.

 

No próprio livro de Êxodo há indicações claras de que Moisés é o autor da obra, isso pode ser comprovado em muitas seções (17.14; 24.4; 34.27), ainda que possa não ser de sua autoria na totalidade. Os capítulos 20 a 23 declaram que Moisés foi autor do Livro da Aliança, que inclui os Dez Mandamentos, os juízos e todos os estatutos acompanhantes (24.4-7). O conhecido Código Sacerdotal que trata do ritual do Tabernáculo e do sacerdócio, contido no restante da obra, com exceção dos capítulos 32 a 34, foram confiados diretamente a Moisés da parte do Senhor Deus (25.1,23,31; 26.1). Outras afirmações correlatas ao longo dos capítulos 39 e 40 confirmam a autoria mosaica do livro.

 

Todas as evidências literárias emanadas da obra levam à conclusão de que o autor era um homem altamente instruído, residente no Egito por longo tempo e testemunha ocular do formidável êxodo israelita ruma à Palestina. No livro estão inclusos detalhes compatíveis apenas com o relato de alguém que vivenciou na pele e na alma os incidentes descritos.

 

As longas narrativas na terceira pessoa sugerem que alguém além de Moisés compilou o livro no forma em que se encontra atualmente. Parece razoável supor que estas passagens, apesar de consideradas obra de Moisés, foram colecionadas e organizadas por uma pessoa contemporânea, possivelmente seu pupilo Josué. Mesmo assim o livro de Êxodo continua substancialmente a obra literária de Moisés. Qualquer atividade editorial posterior está limitada em grande parte à modernização da terminologia arcaica ou técnica de nomes geográficos do texto.

 

CONTESTAÇÕES A AUTORIA MOSAICA

Alguns estudiosos afirmam que Moisés escreveu apenas parte do Êxodo e que organizadores fizerem acréscimos posteriores. Há os que consideram Êxodo da autoria de seu sucessor, Josué, ou do sacerdote Eleazar, com base na tradição oral recebida de Moisés e Arão.

 

Eruditos dedicados a alguma forma de autoria múltipla associada à Hipótese Documentária para a composição do Pentateuco dividem Êxodo em três fontes principais: os documentos J (javista), E (eloísta) e P (sacerdotal). Os capítulos de 1 ao 34 geralmente são considerados “emendas” de E, J e P, enquanto os capítulos de 34 a 40 são considerados material sacerdotal (P). A análise tradicional das fontes atribui a “montagem” final das fontes literárias do Êxodo em texto ou livro completo a autores-organizadores sacerdotais anônimos do período exílico e pós-exílico (600-400 a.C.)

 

Segundo essa hipótese, as tradições orais nas quais o livro de Êxodo se baseou sofreram acréscimos e revisões consideráveis no decorrer da vários séculos (séculos IX a V a.C.). Por essa razão, os críticos do Antigo Testamento suspeitam da integridade literária do livro e são céticos com relação à sua historicidade.

 

DATA DE COMPOSIÇÃO DO LIVRO

Assumindo a autoria mosaica de Êxodo, devemos datar o livro após os acontecimentos do Êxodo (1450-1440 a.C.) e antes da morte de Moisés, próxima a 1406 a.C.

 

CARACTERÍSTICAS E TEMAS

Diversos temas importantes destacam-se em Êxodo. Primeiro o livro conta como o Senhor libertou Israel do Egito para cumprir sua aliança com os patriarcas. Um segundo elemento importante do livro é a revelação da aliança no Sinai, que especificou os termos do relacionamento entre Deus e o seu povo. O terceiro tema deriva dos dois primeiros e é sua consumação: trata-se do restabelecimento da morada de Deus com o ser humano. Cada um desses temas envolve um triunfo da graça divina. Deus resgatou seu povo de forma poderosa da escravidão no Egito, revelou-se de forma estrondosa no Sinai, e manifestou a sua graciosa condescendência ao habitar no tabernáculo em meio ao seu povo pecador. O desdobramento desses temas também revela a santidade e a graça do Senhor na sua lei da aliança e no simbolismo cerimonial da vida e do culto de Israel.

 

Crucial para a narrativa é o papel de Moisés como mediador entre Deus e o homem. Como servo escolhido de Deus, Moisés é o mediador do juízo contra o Egito e aquele por meio de quem Deus liberta Israel. Através de Moisés, Deus dá sua revelação no Sinai. Como um pastor, Moisés também guia o povo e, por meio dele, Deus provê alimento e água. Mas o papel de Moisés na história da redenção aponta diretamente para Cristo, o Mediador da nova aliança (Dt 18.15).

 

Além da descrição dos acontecimentos históricos por meio dos quais Israel foi libertado para tornar-se o povo de Deus, Êxodo também trás uma grande ilustração da obra salvífica de Deus através da história. O salvador redime o seu povo escolhido dos poderes do mal, julga esses poderes e reivindica o seu povo como o seu primogênito, uma nação santa de sacerdotes em meio da qual ele habita pelo seu Espírito. O padrão da vitória divina sobre os inimigos, seguido pelo estabelecimento do lugar da habitação divina é repetido na primeira e segunda vinda de Cristo (Ef 2.14-22 e Ap 20.11).

 

O simbolismo encontrado em Êxodo torna-se realidade na nova aliança (Jr 31.31-34; Cl 2.17; Hb 10.1). O sangue aspergido do sacrifício de animais é agora substituído pelo sangue de Cristo (24.8; Mt 26.27-28; Hb 12.24; IPe 1.2). A substituição simbólica do cordeiro da Páscoa é cumprida em Cristo, o Cordeiro de Deus, o nosso sacrifício pascal (Jo 1.29; 1Co 5.7) realiza a salvação do verdadeiro povo de Deus. O povo de Deus da nova aliança é unido a Jesus Cristo, em quem os gentios tornam-se o povo de Deus, membros da comunidade de Israel e concidadãos dos santos do Antigo Testamento (19.5-6; Ef 2.11-19). O significado pleno da descrição de Israel no Êxodo pode agora, pois ser aplicado às igrejas dos gentios (1Pe 2.9-10).

 

O livro termina com uma consideração pormenorizada da teologia da adoração. Embora fosse dispendioso em tempo, em esforço e em valor monetário, o tabernáculo em seu significado e função, aponta para o fim principal do homem: glorificar a Deus e desfrutar dele para sempre. Por meio do tabernáculo, o Deus do universo, onipotente, imutável e transcendente, veio “habitar” ou “tabernacular” com seu povo, e assim revelar também a sua misericordiosa proximidade. Deus, além de ser poderoso a favor de Israel, também está presente em seu meio.

 

PROPÓSITO E MENSAGEM

A mensagem de Êxodo é resumida em duas passagens: a comissão de Moisés (6.2-9) e o prefácio da cerimônia da aliança no Sinai (19.1-6). Os três componentes básicos da mensagem incluem:

1 –  O julgamento da nação opressora, o Egito;

2 – O livramento de Israel da escravidão pelo “braço forte” do Senhor Deus;

3 –  A instituição de Israel como posse especial de Deus entre os povos.

 

O propósito histórico de Êxodo é a preservação dos registros explicativos da transformação dos israelitas em escravos no Egito, bem como seu livramento e presença no deserto do Sinai. A narrativa do Êxodo liga as histórias patriarcais e história posterior da nação teocrática ao tomar posse de Canaã (6.4).

 

Já o propósito didático do livro inclui a instrução sobre a importância da manutenção do relacionamento de aliança com Javé e a importância da lei como instrumento para moldar e preservar a identidade de Israel como povo de Deus (23.20-23). Somente por meio da obediência às estipulações da aliança, Israel poderia ser reino de sacerdotes e nação santa para Javé, cumprindo seu destino divino entre as nações (19.5-6).

 

ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO

O livro de Êxodo é facilmente dividido em três grandes blocos de material narrativo com base na sequência de pontos geográficos de Israel durante a viagem do Egito ao monte Sinai:

 

1.     Israel no Egito (1.1 – 13.16);

2.     Jornada de Israel no deserto (13.18 – 18.27);

3.     Israel no Sinai (19.1 – 40.38).

 

O livramento divino dos hebreus da escravidão no Egito é narrado de modo temático no Êxodo, ligando a libertação do clã de Jacó por José (Gn 46 – 50) e de Israel por Moisés à entrada na terra da promessa (Números e Deuteronômio).

 

O Êxodo, livro da redenção do povo da aliança, complementa Gênesis, o livro da inauguração da aliança, e apresenta Levítico, o livro da santidade para o povo da aliança.

 

A linguagem e o conteúdo de Êxodo também apresentam marcas deliberadas de transição indicativas de que as narrativas de Gênesis, Êxodo e Levítico devem ser lidas como um documento unificado. Por exemplo, a repetição em Êxodo 1 dos nomes dos filhos de Jacó que migraram ao Egito associa os relatos do livro à história da permanência de Jacó na terra dos faraós (Gn 46 – 50). Da mesma forma a passagem final de Êxodo, que descreve a glória de Deus enchendo o tabernáculo (40.34-38), prevê a partida de Israel do Sinai liderada pela nuvem (Nm 10.11-35). Finalmente, como nos livros de Levítico e Números, a formula de oráculo divino é encontrada varias vezes em Êxodo (“...disse o Senhor a Moisés”, 19.21; 25.1 etc.), enquanto a expressão introdutória “Foi isso que o Senhor ordenou” interliga as legislações de Êxodo e Levítico (Êx 35.4; Lv 8.5; 17.2).

 

A parte 1 conta a história do julgamento do Egito e da libertação de Israel do cativeiro. Em primeiro lugar, Moisés é apresentado como instrumento divino para assegurar a libertação dos hebreus e, depois é incumbido e equipado para realizar a tarefa. Essa passagem destaca a longanimidade de Deus e a obediência de Moisés às suas ordens. Javé também concede poderes a Moisés para realizar sinais e aponta seu irmão Arão como seu porta-voz. Afirma o sucesso da missão ao se revelar como EU SOU. No entanto, antes de Moisés livrar Israel do Egito, para ratificar a aliança com Deus no Sinai, ele devia obedecer às condições divinas estabelecidas anteriormente na própria família (18.26).

 

O Método divino para libertar Israel por meio de uma série de pragas devia levar o juízo à nação egípcia (12.12). A instituição da Páscoa foi um memorial para as gerações israelitas futuras. Como lembrete do ato poderoso do Senhor na história, ela devia inspirar aos hebreus reverência e adoração alegre (12.14-27).

 

A parte 2 explica com o Senhor transformou uma multidão de ex-escravos em “tesouro pessoal”, seu povo da aliança, por intermédio da aliança no Sinai (19.1-6).

 

A última parte dá detalhes do tabernáculo de Javé e dos seus utensílios. A própria presença de Deus foi estabelecida no meio de Israel nesse santuário (25.8). A ordenação de Arão e seus filhos como sacerdotes ajuda a explicar a inclusão da genealogia que legitimava o sacerdócio (cap. 6). A idolatria e a rebelião do Egito julgados por Javé no Êxodo tiveram um episódio paralelo do bezerro de ouro quando Israel acampava no Sinai (32.1-10). A ira de Javé foi retida pela oração de Moisés em prol do seu povo, e a misericórdia divina tornou possível a renovação da aliança (32.11 – 34.17). Dada a propensão de Israel à rebelião e obstinação, esse padrão caracterizou boa parte da história no Antigo Testamento. Não é de se admirar que a nova aliança será escrita no coração, não em tábuas de pedra (Jr 31.31-34).

 

UM REI QUE NÃO CONHECERA JOSÉ

O livro de Êxodo mantém no anonimato os faraós que de algum modo estavam relacionados aos israelitas. Visto que nos registros egípcios não há nenhum relato a respeito da presença dos israelitas, tampouco da opressão que sofreram e de seu êxodo. As tentativas de identificar esses faraós dependem de algumas pistas vagas contidas na narrativa. Nos séculos 16 e 17 a.C., um povo conhecido como hicsos, que não era egípcio nativo, governou o Egito. Geralmente acredita-se que o faraó mencionado em 1.8 representa o primeiro governante hicso ou o primeiro governante egípcio nativo, após a expulsão dos hicsos. A diferença seria de no mínimo cem anos (cerca de 1650 ou 1550 a.C.), podendo chegar a duzentos anos, caso alguns dos primeiros governantes hicsos que detinham um poder apenas parcial, tenha sujeitado os israelitas à escravidão.

 

A SERVIDÃO NO EGITO

Transcorrem aproximadamente trezentos anos desde a morte de José. Os setenta e oito hebreus que se haviam radicado no fértil Delta do Nilo multiplicaram-se em centenas de milhares. Mas o povo israelita, outrora objeto de favor do faraó, é agora escravo temido e odiado pelos egípcios.

 

A situação política mudou radicalmente no Egito. Os hicsos, povo que havia ocupado o pais por quase dois séculos, foram expulsos, e o Alto Egito e o Baixo Egito voltaram a unificar-se. O Egito chegou ao apogeu e inicia um grande programa de construção de cidades depósito. Uma nova família de faraós assume o trono e, os serviços que José prestou ao Egito constituem apenas uma distante lembrança entre os egípcios. Não há sequer gratidão para com os hebreus pelo bem que José e seus descendentes fizeram ao país.

 

Os hebreus antes protegidos do faraó, agora vivem sob desconfiança. Os governantes acreditam que essa grande nação estrangeira em seus domínios, poderiam se aliar a algum poderoso inimigo a ajudar a derrotar o Egito. Mesmo assim, o faraó não queria que os hebreus se retirassem do Egito. Com dureza os obrigou a servir como escravos, entendendo que desse modo os diminuiria em número; ao mesmo tempo se valeu deles para a construção de obras publicas. Os hebreus são organizados em grupos comandados por capatazes para fazer tijolos, construir edifícios, canais e preparar fossos para irrigação.

 

Deus frustra os planos do faraó de com trabalho fazer os israelitas pararem de se multiplicar. Quanto mais eles são oprimidos, mais se multiplicam. A tentativa de exterminar os hebreus matando os recém-nascidos do sexo masculino, faz-nos lembrar a matança dos meninos em Belém (Mt 2.16-18). O faraó mandou poupar a vida das meninas pensando que elas se casariam com egípcios e assim perderiam sua identidade racial. A situação dos israelitas tornou-se grave. Para sobreviver eles precisavam de um libertador.

 

A PREPARAÇÃO DE MOISÉS

Moisés figura junto a Abraão e Davi como um dos três maiores personagens do Antigo Testamento. Libertador, dirigente, mediador, legislador, profeta, e sobretudo um grande homem de Deus.

 

Moisés nasceu numa família da tribo de Levi. Era um menino extraordinário, bonito aos olhos de Deus (Atos 7.20). Não era uma criança comum (Hebreus 11.26). A mãe o escondeu por três meses. Quando já não havia meios de esconder a criança veio-lhe uma estratégia, colocou o menino em um cesto e vedou com betume, para que pudesse flutuar e colocou-o no rio entre os juncos para que a correnteza não o levasse para longe. A Irmã do garoto, Miriã, ficou acompanhando para ver o que aconteceria. A filha do faraó veio ao rio para se banhar. As servas da princesa Viram o cesto e vendo que havia nele uma criança, entenderam que era filho dos hebreus. A princesa resolveu adotá-lo. A Irmã do garoto aproximou-se e ofereceu-se para encontrar quem amamentasse o menino, o garoto foi entregue a própria mãe.

 

Após o menino ser desmamado, entre cinco e sete anos de vida, ela o entregou a filha do faraó, que lhe deu o nome de Moisés, que quer dizer “das águas foi tirado”. Ele passou a ser educado como príncipe do Egito. Aprendeu a ter disciplina, liderança e autoridade. O rapaz não esqueceu as lições dadas por sua mãe, mesmo sendo um príncipe do Egito preocupava-se com o povo hebreu, seu povo.

 

Crescer na casa do faraó envolvia certos privilégios em termos de educação e formação, incluindo literatura, ensino das artes dos escribas e preparo bélico. Línguas estrangeiras eram consideradas importantes para o desempenho de funções diplomáticas, e deste modo deveriam fazer parte do processo de formação na corte. Uma das qualidades que os egípcios mais admiravam era a retórica. Embora Moisés provavelmente tenha sido treinado na arte da retórica, ele não se considerava habilitado nessa área (4.10-12).


Aos quarenta anos, precisou fugir do Egito. Foi para o deserto onde viveu quarenta anos sendo pastor de ovelhas. Aprendeu a ter paciência, conduzir, proteger e amar o seu rebanho, também a enfrentar as dificuldades do deserto.

 

Moisés aprendeu: quem era seu povo; a ser disciplinado; a liderar; a ter autoridade; a usar a paciência, conduzir e proteger.

 

Nada do que aconteceu com Moisés foi obra do acaso, tudo foi propósito de Deus. O Senhor para libertar o povo hebreu do Egito, precisava de um israelita que não fosse escravo, que soubesse liderar, que tivesse autoridade e muita paciência para suportar e conduzir um povo que lhe traria muitos problemas.

 

Deus preparou Moisés para ser o libertador de seu povo. A mão divina evidencia-se passo a passo.

 

Moody, disse que Moisés viveu quarenta anos pensando que era alguém, quarenta anos aprendendo que não era ninguém e quarenta anos descobrindo o que Deus pode fazer com um ninguém.

 

O NOME DE DEUS

Em nome de quem me apresentarei diante do povo?” (3.13). Talvez Moisés sentisse que se não tivesse o apoio da autoridade do nome de Deus, não seria aceito pelos israelitas, ou talvez desejasse ter uma nova revelação do caráter divino, pois os nomes de Deus revelam o que Ele é. Deus revelou-se como “EU SOU O QUE SOU”. O nome indica que Deus tem existência em si mesmo e não depende de outros. Tem existência sem restrições. É como o fogo na sarça que ardia, mas não se consumia. Seus recursos são inesgotáveis e seu poder incomparável.

 

Uma leitura casual de 6.3 pode levar à conclusão de que o nome Yahweh (Senhor) não era familiar aos patriarcas, embora os textos de Gênesis 15.7 e 28.13 claramente sugiram o contrário. É verdade que El-Shadai (Deus Todo-poderoso) era conhecido dos patriarcas e em Gênesis 17.1 e 35.11 é El-Shadai que aparece associado aos aspectos da aliança que vão sendo assimilados pelos patriarcas ao longo dos anos. Em contraste, Yahweh está ligado às promessas que demandavam longo prazo para serem cumpridas, particularmente aquela relacionada a terra; assim é correto dizer que os patriarcas não conheciam esse aspecto de Deus, isto é, Ele não se revelou dessa maneira. Os patriarcas provavelmente não adoravam a Deus usando o nome de Yahweh, mas não podemos concluir por esse texto, que o nome era totalmente estranho a eles.

 

A revelação do nome Javé (ou Jeová) a Moisés como libertador divinamente escolhido de Israel marcou a nova fase na auto-revelação progressiva de Deus ao povo hebreu. O nome geralmente é traduzido por EU SOU e denota o aspecto pessoal, eterno e auto-suficiente da natureza e do caráter divinos.

 

A revelação do nome divino Javé não foi a única maneira pela qual Deus se fez conhecer a Israel durante a experiência do Êxodo. Vários outros tipos de teofanias são relatadas nas narrativas do Pentateuco. Por exemplo, Javé revelou sua natureza e pessoa, bem como sua vontade e propósitos a Israel de formas variadas.

 

AS CIDADES DE PITOM, RAMESSÉS E GÓSEN

Pitom tem sido identificada como a cidade egípcia de Pi(r)-Atum, “estado real de Atum”, atualmente conhecida como Tell el-Rataba, ao longo do canal da Ismalia, aproximadamente cem quilômetros a nordeste do Cairo. A identificação desses projetos de construção, no texto, como sendo de cidades-celeiros, não significa que elas eram usadas apenas para armazenamento de grãos. Essas cidades eram importantes centros na região, podendo até mesmo ser consideradas como capitais.

 

A localização da cidade de Ramessés foi motivo de controvérsias durante muitos anos, mas foi agora identificada como Tell Ed-Dab’a, cerca de trinta quilômetros ao norte de Pitom. O Lugar tem sido alvo de amplas escavações arqueológicas por M. Bietak. Foi capital dos hicsos, com o nome de Ávaris, e mais tarde reconstruída por Ramsés II, como sua capital, Pi-Ramesse, durante o século13. Foi destruída para construir Tânis como a capital do Delta, na Vigésima Dinastia, durante o século 12 a.C. (período dos juízes). Ramsés II escravizou diversos povos para trabalharem na construção da cidade, inclusive os “habiru” (um termo usado no segundo milênio para designar povos sem posses), uma designação que mais tarde foi aplicada aos hebreus, bem como a outros povos.

 

A localização exata de Gósen ainda é desconhecida, embora certamente se situasse na parte leste da região do Delta do Nilo.

 

AS DEZ PRAGAS

Uma das palavras hebraicas que se traduzem por “praga” no Êxodo, significa dar golpes ou ferir. Outras palavras descrevem as pragas como “sinais” e “juízos”. De modo que as pragas foram tanto sinais divinos que demonstraram que o Senhor é o Deus supremo, como atos divinos pelos quais Deus julgou o Egito e libertou seu povo. Ocorreram na hora predita por Moisés, tinham uma intensidade extraordinária e só foram removidas pela intervenção de Moisés. Além disso, Deus fez distinção entre os egípcios e os israelitas não castigando aos hebreus com as últimas sete pragas.

 

As pragas foram as respostas de Deus à pergunta do faraó: “Quem é o Senhor, cuja voz eu ouvirei?” (5.2). Cada praga foi, por outro lado, um desafio aos deuses do Egito e uma censura à idolatria. Agora as divindades egípcias ficaram em evidente demonstração de sua impotência perante o Senhor, não podendo proteger aos egípcios nem intervir a favor de ninguém.

 

Isso é verdadeiro no sentido de que os deuses egípcios foram incapazes de protegê-los. É difícil, porém afirmar se alguma praga era dirigida a algum deus em particular. No entanto, as duas pragas finais parecem ser dirigidas ao principal deus egípcio, o deus sol Rá, e ao seu representante terreno, o faraó.

 

A Nona praga que fez cair grandes trevas sobre o país foi o grande golpe contra todos os deuses, especialmente contra Rá, o deus sol (10.21-29). Os luminares celestes, objetos de culto, eram incapazes de penetrar a densa escuridão. Foi um golpe direto contra o próprio faraó, suposto filho do Sol.

 

 A décima praga é dirigida ao faraó. Na nona praga, seu “pai”, o deus sol havia sido derrotado e agora, seu filho, o provável herdeiro do trono, seria morto. Isso representa um terrível golpe contra a pessoa do faraó, ao seu reinado e à sua divindade.

 

OS MAGOS DO EGITO

É difícil de entender a resposta dos magos. Como os magos do Egito realizaram milagres em resposta a Arão (7.8-13)? Os adivinhos de faraó eram da classe sacerdotal poderosa e reverenciada na sociedade egípcia. Eram devotos do deus da lua, Tote, que também era o deus da magia e da adivinhação.

 

Os magos eram especialistas em feitiços e encantamentos, e conheciam a fundo a literatura de presságios e sonhos. Eles faziam simpatias e usavam suas mágicas para dar ordens aos deuses e espíritos. A magia era o elemento que dava sustento a toda a criação, segundo os que à praticavam. 

 

Segundo o ensinamento do Antigo e Novo Testamento, esse tipo de sistema religioso idólatra é energizado por poderes demoníacos (Dt 32.16-17; Sl 106.36-37; At 16.16-18; 1Co 10.20; 2Ts 2.8-12).

 

O ENDURECIMENTO DO CORAÇÃO DO FARAÓ

O endurecimento do coração do faraó é um tema recorrente que aparece mais de vinte vezes (desde o envio das pragas até a travessia do mar). Diferentes verbos são usados para descrever essa situação; algumas vezes o faraó endurece seu próprio coração, enquanto que em outras, o coração do faraó é endurecido pelo Senhor. Esse conceito de endurecimento é semelhante a expressões egípcias que passam a idéia de perseverança, teimosia, persistência e uma natureza insubmissa.

 

Como podemos explicar o “endurecimento do coração do faraó”? Primeiro Deus já estava ciente da teimosia do faraó (3.19-20). A série de sinais e maravilhas foi usada por Deus para confirmar a rebelião pecaminosa do faraó contra o Senhor na opressão dos israelitas e a negação de libertá-los para adorar a Deus (7.3-4). O faraó continuou a endurecer seu coração durante os dois milagres de Moisés e Arão e as cinco primeiras pragas (7.8 – 8.32). Até os magos admitiram as limitações de seus poderes perante Javé (8.19); porém, o faraó aumentou sua resistência (8.32).

 

O narrador nos informa que depois da sexta praga, o próprio Senhor endureceu o coração do faraó (9.8-12). Parece que o faraó não tinha mais a opção de apenas se arrepender e obedecer ao pedido de Moisés para deixar o povo ir. O curso do juízo divino contra o Egito se tornou irrevogável. Depois de todos os sinais e maravilhas que o Senhor fez, o faraó e seu povo não tinham desculpa diante de Deus e mereciam a pena de morte, ou seja, a praga da morte.

 

É possível que no endurecimento do coração do faraó contra Deus, ao rejeitar os sinais e maravilhas, ele tenha negado intencionalmente a atividade divina na história humana. De forma implícita, atribuiu obras divinas a demônios ao não reconhecer Javé (5.2), exigindo que seus magos fizessem sinais e maravilhas iguais (7.11) e ignorando o discernimento deles a respeito do “dedo de Deus” intervindo na história egípcia (8.19).

 

DATA DA SAÍDA DE ISRAEL DO EGITO E CONTEXTO

O maior problema para os estudiosos foi determinar o século em que os fatos associados à saída do Egito realmente aconteceram. Aliás, uma das grandes dificuldades cronológicos do estudo do Antigo Testamento é determinar com precisão a data do Êxodo, e isto ainda é tema de muito debate entre os estudiosos da Bíblia. Duas posições básicas surgiram desse debate: as denominadas posições da “data mais antiga” e da “data mais recente”. A cronologia do êxodo torna-se mais complicada porque a migração da família de Jacó para o Egito, em razão da fome na Palestina, também não pode ser calculada com exatidão.

 

Como apenas dois faraós do Egito reinaram por mais de quarenta anos (tempo de duração do exílio de Moisés no deserto durante a opressão dos hebreus), seus reinados tornaram-se foco de debate da datação do Êxodo. A posição da “data mais antiga” identifica Tutmósis III (1504-1450) como o faraó da opressão e Amnenófis II (1450-1425) como o faraó do Êxodo. Ambos reinaram durante a Dinastia XVIII do período da história egípcia, conhecido por era do Novo Império, e datam da Idade do Bronze Tardio da história do Antigo Oriente Médio.

 

A posição da “data recente” identifica Ramessés I (1320-1318) e Seti I (1318-1304) como faraós durante a opressão dos hebreus e Ramessés II (1304-1237) como faraó do Êxodo. Todos foram reis da Dinastia XIX do Novo Império do Ferro Antigo no Antigo Oriente Médio.

 

Na controvérsia sobre a data do êxodo, está em questão a interpretação de dados bíblicos e extrabíblicos. Os proponentes da “data mais antiga” acentuam a interpretação literal dos números bíblicos registrados em Êxodo 12.40, Juízes 11.26 e 1Reis 6.1 e recorrem seletivamente à arqueologia (ambos citam as evidencias arqueológicas de Jericó e Hazor para apoiar suas posições). Os defensores da “data recente” interpretam os números simbolicamente e dão prioridade à informação histórica extrabíblica e à evidencia arqueológica. A abordagem adotada neste estudo pressupõe a validade histórica dos números bíblicos, reconhecendo ao mesmo tempo, a natureza incerta da evidencia reunida por ambos os campos ao recorrer seletivamente a dados extrabíblicos e arqueológicos.

 

Segundo o texto de 1Reis 6.1, o êxodo do povo de Israel aconteceu 480 anos antes do quarto ano do reinado de Salomão. Como essa data deve ser o ano de 966 a.C., é tradicional e mais correto afirmar que a saída do povo de Israel do Egito se deu por volta de 1446 no reinado de Amenotepe II. Além disso, ainda que a cronologia egípcia referente à Dinastia XVIII seja um tanto imprecisa, modernas descobertas arqueológicas e estudos mais profundos contribuem para a sustentação da tese mais tradicional, revelando que dois faraós dessa dinastia, Tutmés III e o filho Amenhotep II, foram respectivamente os faraós da tirania e do tempo da partida dos israelitas (2.15,23; 3.10). Contudo, o surgimento do nome Ramessés em Êxodo 1.11 tem estimulado muitos intérpretes da Bíblia à deduzir que o faraó Seti I (Dinastia XIX), e o filho Ramessés II foram os faraós da opressão e do êxodo. Algumas avaliações arqueológicas mais recentes não são conclusivas, chegando a atribuir outra data que se situaria mais próxima da Dinastia XVIII; entendendo que a citação do nome de Ramessés (1.11) é fruto de uma atualização feita por um algum copista nos séculos que se seguiram à morte de Moisés, procedimento que talvez ajude a explicar o aparecimento do mesmo nome em Gênesis 47.11. De qualquer forma, até hoje, não existe qualquer razão objetiva e comprovada para que se altere em muito a data tradicionalmente aceita para o grande êxodo de Israel, quando o Senhor Deus os libertou da escravidão egípcia por volta de 1446 a.C.    

 

Esta datação permitiria uma possível identificação dos imigrantes israelitas com os habiru, um grupo mencionado nas cartas de Tell el-Amarna (correspondência entre o Egito e os seus vassalos siro-palestinos durante o século XIV a.C). Os habiru eram uma classe social ou ocupacional comumente atestada em textos a partir de 2000 a.C. Eles tornaram-se párias políticos na Palestina (Gn 14.13).

 

A ROTA DO ÊXODO

Já foram propostas pelo menos três rotas possíveis de escape de Pitom e Ramessés (1.11):

1-    Rota do extremo norte do Sinai,

2-    Rota central do Sinai,

3-    E a teoria tradicional da rota sul do Sinai.

 

A teoria da rota norte inclui a identificação de Baal-Zefom com Ras Casrum a noroeste do Sinai. Além disso, a rota norte é coerente com o pedido de Moisés ao faraó para o povo viajar durante três dias para adorar a Javé (3.18). A rota também corresponde à distância mais curta até Cades-Barnéia, objetivo imediato dos hebreus. No entanto esta é a opção menos provável das três, por manter os israelitas próximos demais do território egípcio.

 

A teoria da rota central situa o monte Sinai a noroeste da Arábia, além de Ácaba, em parte porque a narrativa de Êxodo sobre o encontro de Moisés e Deus, descreve um vulcão ativo (19.16-25) também porque a mesma região é ligada tradicionalmente à terra dos midianitas (3.1; 18.1). Hoje essa alternativa foi praticamente descartada em diferentes pesquisas. Em primeiro lugar, demonstra-se que a teofania do Sinai é que causou todas as ocorrências no monte e não um vulcão ativo, então não há necessidade de situar a Sinai na Arábia, local mais próximo de atividade vulcânica.

 

A tradicional teoria da rota do sul para o Êxodo ainda acomoda todas as informações bíblicas e geográficas conhecidas de forma convincente. É provável que a travessia do mar Vermelho (mar dos juncos) aconteceu em algum lugar dos pântanos e lagos salgados entre o mar Mediterrâneo e o golfo de Suez. Os lagos Menzaleh, Balah e Timsah, como grandes lagos amargos, foram sugeridos como candidatos ao mar Vermelho do Êxodo.

 

A rota para o sul parece a mais provável, já que vários dos locais de itinerários de Israel pelo deserto nessa trajetória já foram identificados com a narração bíblica. Mas, o lugar exato da travessia do mar Vermelho é, porém incerta.

 

IDENTIFICAÇÃO DAS LOCALIDADES NO DESERTO DO SINAI

A península do Sinai é um triangulo de terra medindo aproximadamente 240 km de leste a oeste no extremo norte e 420 km ao longo dos outros lados. Dois braços do mar Vermelho, os golfos de Suez e de Ácaba, são os seus limites longitudinais. Os hebreus dirigiram-se ao sul ao longe da costa ocidental do Sinai. As águas de Mara (15.22-25) são normalmente identificadas com Ain Hawarah (em torno de 70 km ao sul da extremidade do golfo de Suez), porém Ain Musa pode ser a localidade correta. Elim, com suas diversas fontes e árvores, tem sido identificada com Wadi Gharandel, o acampamento junto ao mar Vermelho (Nm 33.10), cerca de 11 km ao sul de Ain Hawarah. O deserto do Sim seria melhor identificado com Debet er-Ramleh, uma planície arenosa ao longo do limite do planalto do Sinai. Se a localização tradicional do Monte Sinai como atual Jebel Musa estiver correta, Israel teria então se afastado da costa por uma série de vales até o Jebel Musa, viajando através do deserto de Refidim, onde eles lutaram contra os amalequitas (17.8-16). Refidim foi o último local de acampamento no deserto do Sinai antes de chegarem à montanha sagrada. Depois prosseguiram até o monte Sinai onde receberam a Lei.

 

OS DEZ MANDAMENTOS

Logo depois de tirar os israelitas do Egito, Deus lhes deu a lei por intermédio de Moisés. Afinal, o povo era composto por seiscentos mil homens, além das mulheres e crianças (Ex.12.37), e era preciso que, de imediato fosse estabelecido um regulamento para que aqueles que foram libertos não se tornassem libertinos. Os que antes serviam a Faraó precisavam agora aprender a servir a Deus. As regras do Egito não valiam mais. Com a libertação começava uma nova vida, com novo padrão de comportamento.

Entre as centenas de mandamentos estabelecidos por Moisés, o decálogo tem lugar de destaque. Sobre ele faremos algumas considerações que poderão ser aplicadas a toda a legislação mosaica.


Em Êxodo 20.3-17, lemos:

I – Não terás outros deuses diante de mim.


II - Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam e uso de misericórdia com milhares de gerações dos que me amam e guardam os meus mandamentos.

 

III - Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.


IV - Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou.

V - Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá.

 

VI - Não matarás.

 

VII - Não adulterarás.

 

VIII - Não furtarás.

 

IX - Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.


X - Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.


Aqueles dispositivos legais haveriam de ser regulamentados por meio de leis complementares. Temos, portanto, nos dez mandamentos, a carta magna da lei de Deus para Israel, apresentando o essencial da vontade do Senhor naquele momento.


Alguns mandamentos se aplicam à relação do homem com Deus (Não terás outros deuses diante de mim). Outros, à relação do homem com o próximo ("Não matarás", "Não furtarás"). Temos ainda o aspecto da relação do homem consigo mesmo (o dia de descanso). Subjacente a estes mandamentos encontra-se o amor a Deus, ao próximo e a si mesmo (Mt.22.37-40). Como disse o apóstolo Paulo: "O cumprimento da lei é o amor" (Rm.13.10).


As relações com o próximo são divididas entre: relações familiares (Honra teu pai e tua mãe) e relações sociais em geral (Não dirás falso testemunho contra o teu próximo). Alguns mandamentos contêm ambos os aspectos ("Não matarás", "Não adulterarás"). Podemos dizer que todos os "mandamentos sociais" aplicam-se também à família, mas a recíproca não é válida.


Existem mandamentos referentes aos atos exteriores (Não furtarás), enquanto outros se referem a atitudes interiores (Não cobiçarás).

Entre os dez mandamentos existem os positivos e os negativos. Oito deles começam com o advérbio "não". São proibições. A lei do sábado tem um aspecto positivo: "Seis dias trabalharás" e o aspecto negativo: "Nesse dia (sétimo) não farás trabalho algum". A única ordem absolutamente positiva é: "Honra a teu pai e a tua mãe".

 

A frequente ocorrência da conjunção "nem" (que significa "também não") indica a eliminação de possíveis situações de exceção que o israelita pudesse alegar para escapar de cumprir os mandamentos. Notamos isso no segundo, quarto e décimo mandamentos.


As leis não pretendiam limitar a liberdade dos israelitas, mas protegê-los das consequências do pecado (a maldade dos pais afeta até os filhos). Além disso, a obediência traz benefícios (para que se prolonguem os teus dias na terra). Nas relações sociais e familiares, a transgressão produz conflitos e tragédias. Por isso, a lei serve como prevenção desses males, evitando a culpa e o sofrimento que o pecado causaria, além do castigo divino, conforme se vê nos mandamentos de número dois e três.


Quando lemos o Antigo Testamento, precisamos identificar os conceitos e princípios expostos ou ocultos no texto, de modo que possamos aplicá-los à nossa realidade. O mais importante princípio contido nos mandamentos é a autoridade divina sobre o seu povo. O sistema de governo sobre Israel, naquele momento, era a teocracia. Assim deve ser conosco. O reino de Deus se manifesta através do conhecimento da sua vontade e da obediência humana correspondente.


O mandamento do sábado nos ensina sobre o valor do trabalho (Seis dias trabalharás) e do descanso. Temos aí também um bom exemplo de administração do tempo, especificamente da semana. A preguiça é combatida (Seis dias trabalharás), bem como a ganância que levaria o israelita a trabalhar sem cessar.


O mandamento contra o adultério nos mostra o valor da família e da fidelidade conjugal. A proibição da cobiça e do furto demonstram o direito à propriedade material. A proibição ao homicídio apresenta o direito à vida e o valor da mesma perante Deus.


O decálogo apresenta, nas entrelinhas, traços do caráter humano e as respectivas facetas do caráter divino. Percebe-se logo o contraste e a necessidade de alinhamento entre o comportamento humano e a natureza divina. Quando Deus proíbe algo, é porque ele conhece as inclinações do coração do homem, em virtude da natureza pecaminosa. O Senhor estava tomando providências para limitar a ação dos desejos carnais e prevenindo o povo quanto às investidas de Satanás, principalmente no diz respeito à idolatria.


Deus estava "preocupado" com questões referentes ao culto, à adoração, quando proibiu a idolatria. O segundo mandamento atinge as manifestações visíveis do primeiro. Por outro lado, além de não ser idólatra, o servo de Deus deve ser reverente diante dele (Não tomarás o nome do Senhor em vão).


Embora alguns mandamentos sejam específicos (não matarás) e outros mais subjetivos (Honra a teu pai e a tua mãe), todos contêm um sentido mais profundo e amplo do que as simples palavras possam expressar. Percebemos isso no ensino de Jesus ao proferir o sermão do monte (Mt.5). Ao citar os mandamentos "não adulterarás" e "não matarás", o Mestre conduziu seus ouvintes a uma reflexão além do sentido imediato dessas palavras, de modo que pudessem conhecer a intenção divina contida na lei.


Naquele estágio da história de Israel, evitar o adultério físico seria uma forma de obediência louvável. Entretanto, o desejo de Deus, apresentado por Jesus, é que, nem pelo olhar ou no pensamento possamos admitir a intenção pecaminosa (Mt.5.27-28). O Senhor deseja, não apenas que evitemos o homicídio, mas que seja eliminado do nosso coração o ódio contra o próximo e, dos nossos lábios, palavras que possam ofendê-lo sem razão (Mt.5.21-22).


No exame destes ou de outros mandamentos da lei de Moisés, precisamos observar a citação de elementos culturais que possam alterar a compreensão ou a aplicação daquelas ordens em outras épocas e circunstâncias. O décimo mandamento, por exemplo, cita escravos e escravas. Portanto, não podemos aplicá-lo na íntegra, literalmente, nos nossos dias, tendo em vista que não praticamos mais a escravidão. A citação dos animais também nos lembra a economia agropecuária daquele povo. Aí está a importância de percebermos a essência do mandamento, seu propósito e o princípio moral ou espiritual nele contido. Nesse caso específico, haveremos de observar como a cobiça se manifesta nos tempos modernos e em situações diferentes das originais. Não estamos desejando a posse dos escravos alheios, mas talvez queiramos sua posição e seu dinheiro.


Outra questão que sempre vem à tona quando se fala dos 10 mandamentos é aquela que se refere ao sábado. A essência do mandamento é que o homem deve trabalhar e descansar (e que trabalhe mais e descanse menos). A igreja do Senhor Jesus é regida pelas normas do Novo Testamento. Nele, encontramos a repetição de quase todos os mandamentos do decálogo, exceto o que se refere ao sábado. Compreendemos, portanto, que a especificação de um dia para o descanso e o culto, trata-se de aspecto temporário das ordenanças divinas, assim como aquele referente aos escravos. Paulo disse que ninguém deveria julgar os cristãos por causa dos sábados (Col.2.16). Entretanto, o princípio do descanso permanece. Ele é importante para a nossa saúde física, mental e espiritual, bem como para a existência de um tempo disponível, em qualquer dia da semana, para o relacionamento familiar e social.


Os mandamentos contêm verbos conjugados na segunda pessoa do singular (tu), ou seja, Deus estava falando com cada israelita individualmente. A responsabilidade espiritual é pessoal e cada um de nós precisa ter o seu próprio compromisso com Deus.


Acima de tudo, o propósito do Senhor, ao dar suas leis a Israel e a sua palavra, como um todo, para o seu povo em todos os tempos era fazer com que nos tornássemos participantes da sua santidade e que, observando os valores ali apresentados, pudéssemos ter uma vida mais gratificante e feliz.

 

O TABERNÁCULO

O tabernáculo era a estrutura que os israelitas construíam para a adoração. Depois do Êxodo, o povo israelita acabou vagando pelo deserto por quarenta anos. Juntamente com os Dez Mandamentos, Deus deu a Moisés instruções bem detalhadas (caps. 25 a 40) de como o povo tinha que construir o tabernáculo e adorar a Deus. Apesar de ser muito luxuosa, essa estrutura era completamente portátil.

 
Toda vez que os israelitas mudavam o seu acampamento de lugar, o tabernáculo mudava com eles. Por ser portátil, o tabernáculo também servia como um símbolo de que Deus andava com o povo de Israel.
Moisés ia ao tabernáculo para determinar a vontade de Deus para o povo. Mais tarde, um templo (que não era portátil) foi construído pelo rei Salomão com o mesmo layout do tabernáculo.


O tabernáculo era diariamente usado como o meio em que o povo se relacionava com Deus. Incenso e outras coisas eram oferecidas a Deus juntamente com orações e louvores. Deus também estabeleceu dias específicos como o dia da expiação quando o povo e os sacerdotes fariam tarefas especiais ou sacrifícios especiais para Deus.


O tabernáculo se tornou o centro da comunidade israelita enquanto eles estavam no deserto. Quando eles acampavam, o lugar do acampamento de cada tribo era determinado pela localização do tabernáculo. 


Os levitas ficavam em volta do tabernáculo e as famílias de Moisés e de Arão sempre acampavam ao leste, na frente da entrada. Mesmo na mudança, o tabernáculo permanecia central, com seis tribos na frente e seis tribos seguindo a trás.

 

A ARCA DA ALIANÇA

A arca era uma caixa de madeira, como um baú, coberto em puro ouro (Êxodo 25:10-16) por dentro e por fora.


A arca representava a presença de Deus com a nação de Israel. Uma arca era uma mobília religiosa comum naquela época no Oriente Médio, mas essa arca era diferente.


Na maioria das religiões pagãs, o baú continha uma estátua da divindade sendo adorada. Neste caso, a arca continha três itens que mostravam como Deus se relacionava com o seu povo: as tábuas com os dez mandamentos (a orientação de Deus), a vara de Arão (a autoridade de Deus) e uma jarra de maná (a provisão de Deus para necessidades diárias do Seu povo).


A arca era portátil como tudo no tabernáculo. Varas compridas de madeira cobertas de ouro passavam por argolas de ouro em cada canto. Essas varas não podiam ser removidas nunca conforme Deus assim havia instruído (Êxodo 25:15).

 

CONCLUSÃO

Ao longo da história de Israel, legisladores, profetas e salmistas repetidamente assinalaram o caráter providencial, extraordinário e miraculoso dos acontecimentos que acompanharam a saída do Egito e, em especial a travessia do mar Vermelho. Quando os hebreus se lembrassem desse favores, deviam sentir-se movidos a gratidão e a obediência à lei. O Êxodo do Egito foi o acontecimento mais significativo da história da nação.

 

ESBOÇO DE ÊXODO

I. A libertação miraculosa de Israel 1.1-13.16

A opressão dos israelitas no Egito 1.1-22
O nascimento e a primeira parte da vida de Moisés 2.1-4.31
O processo de libertação 5.1-11.10
O episódio do êxodo 12.1-13.16

II. A jornada miraculosa até o Sinai 13.17-18.27

A Libertação junto ao mar Vermelho 13.17-15.21
A provisão para o povo 15.22-17.7
A proteção contra os amalequitas 17.8-16
O estabelecimento dos anciões supervisores 18.1-27

III. As revelações miraculosas junto ao Sinai 19.1– 40.38

A chegada ao Sinai e a manifestação de Deus 19.1-25
Os dez mandamentos 20.1-21
O Livro da Aliança 20.22-23.19
A proteção do Anjo de Deus 23.20-33
Israel confirma o concerto 24.1-18
Orientação a respeito do tabernáculo 25.1-31.18
O bezerro de ouro 32.1-35
Arrependimento e renovação do concerto 33.1-35.3
A construção do tabernáculo 35.4-40.33
A glória do Senhor enche o tabernáculo 40.34-38

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FONTES

Panorama do Antigo Testamento – Editora Betesda;

Panorama do Antigo Testamento, Andrew E. Hill & J. H. Walton – Editora Vida;

Panorama Bíblico Avançado, Francisco R. Girardi – Editora Quadrangular;

Estudo Panorâmico da Bíblia, Henrietta Mears – Editora Vida;

Comentário Bíblico Atos, John Walton, Victor Matthews & Mark Chavalas – Editora Atos;

Pentateuco, Isabel de Camargo Fernandes – Editora Quadrangular;

A Bíblia em Ordem Cronológica, Edward Reese e Frank Klassen – Editora Vida;

Bíblia Thompson, Frank Charles Thompson – Editora Vida;

Bíblia King James, Edição de Estudo – Sociedade Bíblica Ibero Americana;

Bíblia Shedd – Editora Vida Nova;

Bíblia de Estudo de Genebra – Editora Cultura Cristã.

Bíblia Plenitude – CPAD

Bíblia de Estudo NVI – Editora Vida

http://anisiorenato.com/

http://www.vivos.com.br/317.htm

 

www.santovivo.net

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